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América Latina e Escandinávia: conheça experiências de Educação Popular nessas regiões

A Ação Educativa abriu seu ano de comemoração de 20 anos durante o Seminário Internacional Educação Popular hoje, realizado dia 22 de maio na Biblioteca Mário de Andrade. O evento contou com a participação de mais de setenta pessoas de movimentos sociais, academia, governo e diversas organizações da sociedade civil.

Com o objetivo de ampliar a discussão acerca da importância da educação popular para a garantia de direitos, ao longo do dia, os debates ocorreram em torno de quatro mesas: “Educação Popular em Outros Continentes”, “Educação Popular e Estado”, “Educação Popular e Movimentos Sociais” e “Educação Popular, Novas Linguagens e Novas Ações Coletivas”.

Dos Folk Schools na Escandinávia ao contexto popular latino-americano

A mesa “Educação Popular em Outros Continentes” buscou discutir como vem se realizando experiências em educação popular na América Latina e na Escandinávia (Folk Schools) no contexto atual e contou com a participação de Nélida Cespedes, do Conselho de Educação Popular da América Latina (CEAAL), e de Marcella Milana, professora e pesquisadora da Universidade de Aarhus, na Dinamarca.

Marcella Milana apresentou a experiência dos Folk Schools, espaços que surgiram no século XIX e se mantêm até hoje baseados em princípios teóricos e pedagógicos que fundamentam muitos dos movimentos populares escandinavos, buscando transformar a condição dos jovens e adultos em verdadeiros sujeitos do processo.

Segundo a professora, os Folk Schools trabalham com conceitos que entendem as pessoas como uma agregação linguística e cultural, formando um grupo social e gerando interações vivas. Dessa forma, se potencializa a participação ativa da sociedade civil. Essas interações buscam o fortalecimento da democracia através do conhecimento, do fomento de experiências e consciência crítica, da cultura e identidade e da formação prática.

Já Nélida Cespedes trouxe uma visão voltada para o contexto latino-americano, lugar em que a educação popular está viva no conjunto de experiências que realizam os movimentos sociais, movimentos de base, do campo, os professores e professoras, dentre outros.

Nascida em comunidades e espaços informais, para além da escola, a educação popular se transforma cotidianamente. “A Educação Popular é como água que vai se emaranhando e passando por diferentes correntes e espaços sociais”, afirmou.

Ao falar sobre a importância de Paulo Freire, Nélida reforçou que o ato educativo é um ato de desenvolvimento de autonomia e de conhecimento da sociedade para transformá-la radicalmente. “Não se trata somente de aprender a ler e a escrever, mas, como dizia Paulo Feire, fundamentalmente é uma concepção crítica da realidade a partir do conhecimento da palavra para transformar um mundo injusto”.

Em um resgaste histórico, Nélida trouxe quatro momentos marcantes para o campo: os anos 60 e a contribuição das ideais de Paulo Freire; a educação popular nos anos 70, entre ditaduras e fortes ideologias; os anos 80 do neoliberalismo econômico, da “década perdida” e da revolução sandinista; e os anos 90 com suas transformações no mapa mundial, caracterizado também por uma refundamentação da educação popular. Nesse sentido, é nessa década que pesquisas voltadas para a ação e para a sistematização dessas práticas são desenvolvidas e se tornam importante fonte para a transformação.

Atualmente, alguns dos temas trabalhados pela educação popular envolvem, de acordo com Nélida, uma nova democracia de participação real, novas participações cidadãs, assim como a importância do desenvolvimento local. Por fim, Nélida destacou a importância da articulação entre os diversos movimentos existentes para que eles possam se desenvolver e enfrentar os desafios políticos, econômicos, culturais e educativos de hoje.

Estado, Educação Popular e políticas públicas

Com o propósito de discutir como se dá a relação entre práticas de educação popular e o poder público no Brasil, a segunda mesa, “Educação Popular e Estado”, contou com a participação de Maria Aparecida Perez, da Prefeitura de São Paulo, Raiane Patrícia Assumpção, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e de Conceição Paludo, da Universidade Federal de Pelotas.

Conceição trouxe uma reflexão acerca da atual compreensão do Estado e das direções estabelecidas para as políticas públicas. Para embasar sua questão, a professora fez uma análise histórica sobre o estado capitalista, propondo uma reflexão sobre a construção de uma instituição a serviço da manutenção da propriedade privada e do Estado como forma política do capitalismo.

Segundo Conceição, as relações de forças existentes na sociedade se condensam na expressão do Estado, lugar onde as lutas de classes estão sempre presentes. As políticas públicas são resultado das dinâmicas de forças constituídas pelos grupos sociais e políticos organizados, mas também dos projetos políticos seguidos pelo Estado.

Nesse sentido, a professora analisa que, atualmente vivemos um período de políticas públicas compensatórias, que buscam balancear os desajustes sociais resultados das políticas neoliberais, mas que, ao mesmo tempo, reforçam essa configuração política com foco na acumulação em detrimento da superação da desigualdade e onde o público dá lugar ao privado.

A professora Raiane Assumpção teceu reflexões sobre a atualidade do tema. No ano que marca os 50 anos do golpe militar no Brasil, Raiane afirma que vivemos em uma democracia representativa, até mesmo nos processos escolares. “Escolhemos o representante de sala, formamos um grêmio estudantil com os representantes. Mesmo fazendo um trabalho na linha de promover a participação e pensar uma maior presença do coletivo nas decisões, a gente ainda trabalha na lógica da representação. E quando vamos para as políticas públicas é da mesma forma”. Segundo a pesquisadora, isso exige uma reflexão.

Para ela, a relação entre o Estado e a sociedade civil é complexa e, embora tenhamos inúmeros avanços em termos democráticos, não tivemos nenhuma mudança de cunho estrutural. E é justamente nesse momento de inúmeras contradições que devemos buscar o papel histórico da educação popular no Brasil e como sua própria história vai se colocando de forma dialética com o Estado e com as políticas que são desenvolvidas.

Já Cida Perez desenvolveu sua fala destacando a importância do momento atual marcado pela mercantilização cada vez mais forte da educação e do processo de individualização que apaga a lógica do coletivo como parâmetro. Através das suas experiências na Secretaria de Educação do município de São Paulo, ela se confrontou com vários desafios no sentido de conseguir traduzir em políticas universais uma educação emancipatória que fomente relações conscientes de transformação, assim como costurar o sistema formal de ensino com o informal.

Para concretizar sua fala, Cida trouxe a experiência do Movimento de Alfabetização (MOVA), da Escola Aberta – na gestão de Luiza Erundina -, e dos Centros de Educação Unificados (CEUs). “A cultura é aquisição sistemática da experiência humana. E é essa aquisição, essa relação, que nos leva a transformar, inclusive os conteúdos que nós temos na escola formal, para que ele faça sentido no nosso cotidiano”, finalizou Cida, citando Paulo Freire.

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