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“A interseccionalidade das discriminações enfrentadas pela mulher negra permite identificar que as relações de gênero e raciais estão ligadas a um processo histórico”

Celebrado em 21 de março, o Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial chama atenção para o combate ao racismo no Brasil e no mundo. Neste mês, também estamos vivenciando uma intensa mobilização dos movimentos e coletivos de mulheres pelo dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher.

A Ação Educativa, em suas três áreas de atuação – educação, cultura e juventude, considera que as políticas de Estado são essenciais para promover equidade e garantir direitos num país tão marcado por desigualdades.

O fardo da raiz escravocrata e patriarcal na formação da sociedade brasileira ainda pesa e retarda a realização de uma cidadania plena pautada na universalidade dos direitos. A violência continua sendo uma realidade na vida de homens e mulheres, sendo a população negra seu principal alvo. Combater as desigualdades, entre elas o racismo e o sexismo, é estruturante e fundamental para a criação de uma sociedade mais justa.

Confira abaixo entrevista com Ednéia Gonçalves, assessora de projetos na área de educação da Ação Educativa, sobre as agendas ligadas às mulheres negras. Socióloga, com experiência em elaboração de projetos, avaliação e formação de gestores e professores, principalmente nas temáticas envolvendo a Educação de Jovens e Adultos e relações raciais, Ednéia atua ainda na formação de gestores educacionais em projetos de cooperação técnica internacional em países africanos lusófonos.

Como a centralidade das agendas de gênero e raça combate as desigualdades estruturais da nossa sociedade?
A abordagem mais conservadora da temática da discriminação focada em grupos (mulheres, pessoas negras, indígenas…) não considera a sobreposição de discriminações como um campo determinante para a defesa de direitos humanos e civis. Se abordarmos os enfrentamentos e discriminações sofridas pelas mulheres negras de forma independente e não como sobreposições, não entenderemos a exata dimensão dos enfrentamentos vivenciados ao longo da trajetória de vida dessas mulheres.

Os sistemas discriminatórios (racismo, sexismo, patriarcalismo, homofobia, lesbofobia…) aliados a opressão de classe são determinantes para a construção de barreiras de acesso a oportunidades profissionais, econômicas e educacionais que estruturam posições sociais. A percepção da interseccionalidade das discriminações enfrentadas pela mulher negra permite identificar que para nós as relações de gênero e raciais estão intrinsecamente ligadas a um processo histórico que coloca a mulher negra em campos diferentes dos homens negros e mulheres brancas tanto na experiência e impacto das desigualdades, quanto na construção de vias de afirmação de identidade, acesso a oportunidades e fortalecimento de autoestima.

O Dia Internacional das Mulheres, este ano, assumiu um caráter de paralisação em diversos países, embora sempre tenha sido uma data de luta. Você acredita que as ações de diversos movimentos feministas podem ser uma resposta à dura conjuntura nacional e internacional para as mulheres, em especial mulheres negras?A proposição original das manifestações deste 8 de maio apresentada pela
Ângela Davis situa a manifestação como “antirracista, anti-imperialista, anti-heterossexista e anti-neoliberal”. Todas as dimensões propostas são campos de enfrentamento de desigualdades vivenciados de forma sobreposta pelas mulheres negras. Acredito que nos interessa participar do movimento, com a clareza de que as implicações da conjuntura que as manifestações denunciam têm um peso maior e específico sobre as mulheres negras.

Atualmente, o debate de gênero tem ganhado vários espaços – midiáticos, territoriais, em grupos sociais diferentes. Como você vê o debate feminista na atualidade?
O que em geral mais assusta no debate sobre o feminismo é o que mais me anima: o reconhecimento de que o debate está para além da oposição entre homens e mulheres. Acredito que esta abordagem rasa só serve para o discurso machista. O avanço na reflexão do impacto das relações raciais, de gênero, classe e a interseccionalidade desses marcadores sociais é o que qualitativamente valoriza as diferentes experiências de vida das mulheres.

Também cresce o contra-discurso, o conservadorismo, que ataca o feminismo, as feministas e a luta das mulheres em geral. Como os movimentos sociais, grupos e coletivos feministas podem lidar com esse avanço conservador?
Isso não é novo. O feminismo nunca foi consenso, quanto mais próximo da experiência cotidiana mais chances de confrontos pessoais e de grupos ocorrem. É no embate que os argumentos se fortalecem – ou não.

Qual é o papel do acolhimento da diversidade e da discussão de gênero e raça na educação para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária?
O acolhimento da diversidade na educação não é suficiente para a garantia de cidadania de todos e todas. Em muitos sentidos a diversidade teve seu imperativo político esvaziado.

Acredito que além que retomar o viés politico do acolhimento à diversidade nosso grande desafio da educação é a promoção da valorização das diferentes identidades e presenças no ambiente escolar. A exclusão escolar atinge direta e violentamente a população pobre, negra e LGBT. A educação para a igualdade de gênero, raça e orientação sexual está prevista em lei e mesmo assim as manifestações de ódio, preconceito e intolerância religiosa continuam crescendo no ambiente escolar. Além das demandas por formação no campo dos direitos humanos envolvendo toda a comunidade escolar é também necessário denunciar abusos e investir em redes de proteção em casos de assédio e ameaça.

Quais as agendas e pautas centrais que podemos enxergar na luta dos diversos movimentos de mulheres na atualidade?
As pautas são muitas, mas destaco algumas que a Ação Educativa também abraça:

  • – O reconhecimento de que avançamos na educação, mas com a permanência de desigualdades. Historicamente as mulheres avançaram em campos tradicionalmente vistos como masculinos (nas ciências, por exemplo), mas as mulheres negras avançaram com desvantagens em relação às mulheres brancas.
  • – Meninos negros permanecem com pior desempenho escolar e maior exclusão educacional. Os indicadores de permanência em processos de escolarização contínua seguem desafiadores. Esta discussão que dialoga com o genocídio da juventude negra é pauta também dos movimentos de mulheres.
  • – Permanência da LGBT e Transfobia: O acolhimento das mulheres trans e pessoas não binárias nos movimentos feministas é uma discussão que precisa ser aprofundada.
  • – Direito a educação infantil e desigualdades de acesso mobilidade e remuneração entre mulheres e homens no mercado de trabalho permanecem como temáticas centrais no cotidiano de mulheres, sobretudo com muito mais ênfase na trajetória das mulheres negras.
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