Notícias
Compartilhar

História da luta antirracista no Brasil é tema de encontro do projeto Jovens Mulheres Negras

Fotos: Naná Prudêncio

“Realizou-se em São Paulo, no dia 7 julho de 1978, na área fronteiriça ao Teatro Municipal, junto ao Viaduto do Chá, uma concentração organizada pelo autodenominado “Movimento Unificado Contra a Discriminação Racial”, integrado por vários grupos, cujos objetivos principais anunciados são: denunciar, permanentemente, todo tipo de racismo e organizar a comunidade negra. Embora não seja, ainda, um “movimento de massa”, os dados disponíveis caracterizam a existência de uma campanha para estimular antagonismos raciais no País e que, paralelamente, revela tendências ideológicas de esquerda”. (Documento do Serviço Nacional de Informações – SNI)*

Retomar a história de luta dos movimentos negros no Brasil, esse foi o desafio proposto pela socióloga Ednéia Gonçalves às participantes do projeto Jovens Mulheres Negras – iniciativa resultado da parceria entre Ação Educativa, Oxfam Brasil e Instituto Pólis – em sua edição de março.

O ponto de partida foi 1978, ano de fundação do Movimento Negro Unificado (MNU), marco na luta antirracista nacional. “De modo algum queremos negligenciar avanços importantes conquistados pelo movimento negro, mas precisamos reconhecer que as pautas de ontem ainda ecoam no presente. A chamada pública do MNU, nesse período, por exemplo, tinha a ver com o genocídio da população negra e com as demais limitações impostas pelo racismo em nossas vidas. Os episódios que representaram essa dura realidade, na época, foram o assassinato brutal de um rapaz em Guaianazes, morto sob tortura, e o impedimento de quatro jovens negros de entrarem no clube de Regatas do Tietê”, recorda Ednéia.

Segundo a articuladora do projeto, Raquel Luanda, a proposta formativa desse encontro de imersão integra às ações de incidência política previstas no âmbito da iniciativa. “Um dos nossos principais objetivos é a centralidade da luta dos direitos humanos na perspectiva antirracista e antissexista para a superação definitiva das desigualdades. Para tanto, precisamos olhar para as conquistas e derrotas de quem veio antes de nós. A luta contra o racismo traz consigo a urgência da ação política nas suas mais diversas frentes, por isso acreditamos que criar e fortalecer espaços de reflexão, como essa vivência, é muito importante para a nossa trajetória enquanto rede de mulheres negras que atuam de maneira muito viva e orgânica nos mais variados territórios”, explica Raquel.

O encontro contemplou as principais pautas das populações negras no período que se iniciou em 1889 até os anos 2000, passando, portanto, pelos debates de fortalecimento da família negra e combate ao analfabetismo; surgimento da imprensa negra e seu papel fundamental na luta contra a segregação; o papel do Teatro Experimental do Negro na construção de uma identidade negra nacional; o falso ideal de democracia racial e a luta pela construção de políticas públicas estruturantes para superação da discriminação racial.

“Ser negro é enfrentar uma história de quase quinhentos anos de resistência à dor, ao sofrimento físico e moral, à sensação de não existir, a prática de ainda não pertencer a uma sociedade na qual consagrou tudo o que possuía, oferecendo ainda hoje o resto de si mesmo”

Citando a historiadora e pesquisadora Beatriz Nascimento, Ednéia finaliza o encontro apontando para a necessidade de reinvenção das disputas dos movimentos negros. Para a socióloga, o combate ao racismo traz consigo a necessidade de forjar um novo modo de ser e estar no mundo, o que aliado à criatividade característica da população negra deve orientar as ações políticas das jovens.

Assista trecho do encontro em que Ednéia Gonçalves narra o cenário de implementação da Lei Afonso Arinos – criada na década de 1950, foi a primeira norma contra o racismo no Brasil:

* Documento do Serviço Nacional de Informações (SNI), de 14 de julho de 1978, relatando a manifestação, nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo, que deu o impulso para a formação do Movimento Negro Unificado (MNU), uma das principais entidades do movimento negro surgidas no Brasil na década de 1970, durante o período militar. Revista de História, 18/11/2011. 

Mais sobre o Projeto Jovens Mulheres Negras

O projeto Jovens Mulheres Negras Contra o Racismo e o Sexismo é parte de uma iniciativa nacional intitulada “Mulheres negras fortalecidas na luta contra o racismo e o sexismo”, que começa a ser implementada em conjunto pela Oxfam Brasil, a Criola, a Ação Educativa, a FASE, o IBASE, o INESC e o Instituto Pólis (todas organizações do campo de defesa de direitos) no segundo semestre de 2016.

A iniciativa prevê a estruturação de espaços de cocriação (os hubs) em quatro cidades: São Paulo, Brasília, Recife e Rio de Janeiro. O objetivo principal é contribuir com o fortalecimento de grupos e redes de mulheres jovens negras por meio da articulação e promoção conjunta de ações em defesa da vida e das agendas de gênero, raça e direitos humanos. A construção de uma rede nacional de mulheres negras ciberativistas também desponta como uma das estratégias centrais da iniciativa.

Em São Paulo, a Ação Educativa em parceria com o Instituto Pólis e Oxfam Brasil já promoveu 9 encontros desde outubro de 2016, entre os temas foram abordados a “a ancestralidade na luta das mulheres negras”; “afetividade no mapa: desvendando a trajetória de luta do AfroHub – SP”; “Comunicação e Incidência”, entre outros.

+ Confira carta sobre o Dia Internacional das Mulheres, publicada no Geledés, produzida pelas jovens que integram o hub em São Paulo.

Comentários: