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Fluxo e cultura da quebrada: debate reflete sobre funk e sociabilidade juvenil nas periferias paulistanas

Os fluxos são espaços de sociabilidade da juventude? Que impacto têm nos jovens periféricos? Como influenciam nas relações que a juventude estabelece com instituições do Estado, moradores/as do território em que vivem e suas famílias?

Em busca de reflexões sobre esses questionamentos, o projeto #JuventudeComDireitos realizou o debate “O Funk como Espaço de Sociabilidade Juvenil na Periferia de São Paulo”, que ocorreu no Centro para Juventude de Sapopemba (CJ Sapopemba) na terça-feira (26/04).

A roda de conversa fez parte da finalização do processo formativo dos jovens participantes, que escolheram realizar uma intervenção sobre a temática do funk na região de São Mateus e Sapopemba. A ideia do debate foi identificar como o funk pode ser pensado como uma porta de entrada para compreender questões caras às juventudes oriundas dessas regiões nas suas relações com diversos agentes.

Estiveram presentes Renata Prado, MC Linn da Quebrada e Bruno Ramos. Renata é dançarina de funk, produtora executiva da festa Batekoo SP e estudante de Pedagogia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp); MC Linn é cantora, bailarina e performer e encontrou em sua música, em específico no funk, uma poderosa arma na luta pela quebra de paradigmas sexuais, de gênero e corpo; já Bruno Ramos é produtor cultural, estudante de Sociologia e Ciências Políticas e parte da Liga do Funk.

Renata fez um resgate histórico, chamando atenção para o fato da criminalização de movimentos culturais periféricos não ter começado na atualidade – a repressão policial em bailes e fluxos nas periferias paulistanas é recorrente. “A gente tem um Estado, uma força armada, que é preparada desde 1920 para fazer isso com os bailes de jovens negros da periferia”, afirma. O que ocorre aos bailes funk na atualidade acontecia com as rodas de samba. Ela cita a chamada “Lei da Vadiagem”, que serviu, em inúmeros casos, para encobrir abusos e comportamentos discriminatórios da própria polícia – instrumentos como pandeiro, berimbau e tambor, ligados à cultura negra e ao samba, eram constantemente criminalizados.

A partir da década de 60 o movimento dos bailes soul, black e funk se intensifica, mudando a cena musical dos jovens negros. Renata pontua que o que conhecemos por funk hoje teve seu início nesse momento. Fortemente perseguido, não são raros relatos de proibição desses bailes, que reuniam milhares de jovens no Rio de Janeiro, pelo aparato policial.

Na atualidade, Renata questiona a perseguição do fluxo na medida em que não permite o desenvolvimento da cultura da quebrada. “Fluxo de rua é manifestação política sim, porque é manifestação cultural”. Para ela, as inúmeras experiências e trajetórias que passam pelo fluxo enriquecem as vivências juvenis, sendo este um espaço de resistência cultural, que deve, por princípio, combater discriminações como o machismo e a homofobia. “Se o funk é espaço de sociabilidade, a juventude tem que aprender a se respeitar em sua diversidade”, afirma.

“A história da população negra, a história de pessoas como nós, que vivemos na periferia, não são as histórias que estão registradas na maior parte dos livros. Não são os nossos corpos, as nossas vivências, que estão representadas na televisão”, conta MC Linn. Relata que é recorrente em entrevistas perguntarem por que ela escolheu o funk. “Por que não o funk? Essa pergunta sempre aparece nas entrevistas porque subestimam o valor que o funk tem como cultura”.

Ela traz um incômodo ao abordar as representações na mídia, no mundo artístico, na publicidade: “nossas histórias parecem não ser importantes o suficiente”. Ainda assim, acredita que a música é uma ferramenta para levar informação para outros espaços. Também tem a capacidade de conectar, de formar redes e de encontrar pessoas que se identificam com aquilo que é cantado, passado através da música.

Acrescenta que o funk conquista público não só pelo ritmo, mas pela capacidade de mover pessoas. Linn começou a escrevê-los e cantá-los como resposta a ataques violentos, a “piadas”, a agressões simbólicas e físicas de sua vivência. Não queria baixar a cabeça. Pelo contrário, gostaria de mostrar que tem voz. Assim, Linn passou a pensar na música enquanto incômodo, barulho, e percebeu que sua voz tinha eco, que outras pessoas se identificavam. “Eu passo a ocupar a música e a inventar minha história. Eu passei a falar sobre mim. Ainda mais fundo, que é falar sobre ser bicha, travesti, preta, de quebrada. E falar sobre os meus desejos”.

Já Bruno Ramos colocou na roda sua vivência enquanto ativista da Liga do Funk, associação que tem por objetivo organizar e fortalecer o ritmo e os MCs na capital paulista. Seu papel é valorizar e profissionalizar jovens que sonham em se tornar artistas do gênero. Realizam aulas de dança, canto, presença de palco e muitos debates sobre as questões que norteiam o funk – política, cultural e socialmente.

Bruno considera que a ausência do poder público nas comunidades e a forte presença da repressão faz com que a juventude passe a se articular com lideranças locais, buscar aportes financeiros para a realização dos fluxos e a efetivação do direito à cultura. De certa forma, a Liga do Funk é uma das representações disso.

“Eu vejo o funk como possibilidade de contar a minha história, porque ele faz isso. Fala de desejo, sexualidade, cria movimento, ritmo e nós, periféricos, conseguimos nos enxergar”, finaliza MC Linn. Para eles, entender a complexidade da cultura do funk, nesse sentido, é fundamental para a discussão do direito à cultura das juventudes.

Confira fotos do debate (créditos: Raquel Luanda/Ação Educativa)

 

  

  

 

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