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Curto-circuito: as experiências das escolas libertárias e as ocupações secundaristas

“Levem-me ao seu líder”. A cena clássica do cinema Sci-fi que retrata a chegada dos extraterrestres no planeta Terra revela como majoritariamente pensamos a vida social: de maneira hierárquica e desenvolvida em torno de instâncias de poder representativas. Mas o que acontece com o sistema quando a resposta é: “não temos líderes”? Curto-circuito.

Por Alexandre Suenaga*

As ocupações das escolas públicas em 2015 e 2016 e o fortalecimento do movimento secundarista causaram um curto-circuito na sociedade brasileira, inclusive nos grupos, instituições e sujeitos que já estavam familiarizados com as lutas e os movimentos sociais e políticos. Mesmo os secundaristas engajados nas mobilizações continuam em processo de elaboração dessas experiências, fato que motivou a promoção do ciclo de formação OcupAção: Jovens em Movimento.

As ocupações causaram rupturas no sentido de promover um novo território, onde os jovens experimentaram a autogestão, a participação democrática, a irrupção de demandas e temas antes silenciados pela grade curricular (como as pautas dos feminismos, movimento LGBT e movimento negro), a conexão com o bairro e com o entorno, entre tantas outras coisas. Essas experiências apresentam outro projeto de educação e de sociedade, não como discurso ou elaboração teórica e sim como prática viva.

Rodrigo Rosa, cientista social, professor da Faculdade de Educação da USP, pesquisador do GPEL** e membro da Biblioteca Terra Livre, participou da quarta oficina do ciclo para somar nessa discussão, trazendo os conceitos e experiências anarquistas desenvolvidas em torno das Escolas Libertárias e estabelecendo conexões com a realidade do movimento secundarista e o contexto brasileiro.

O como se ensina é o que se ensina

A Escola Libertária não traz apenas uma nova proposta pedagógica, mas está conectada a um projeto maior de sociedade, a partir de três princípios fundamentais: autogestão pedagógica, econômica e política. “Hoje encontramos escolas que colocam como pauta a autogestão pedagógica e que desafiam os modelos tradicionais até certo limite. No entanto, em muitos casos, continuam sendo instituições privadas, elitizadas e que visam a lucro. As propostas de escolas libertárias foram além disso”, enfatiza Rodrigo.

A fim de tornar a discussão tangível, Rodrigo apresentou uma séria de exemplos, documentos históricos, fotos e relatos sobre escolas libertárias pelo mundo. Entre elas, La Ruche na França, que desenvolveu diversas experiências desafiadoras, tornando-se uma grande referência para a educação libertária. Em primeiro lugar, La Ruche não era apenas uma escola que as crianças, adolescentes e jovens frequentavam em um período do dia. Ela era um espaço de convivência integral, uma fazenda onde os estudantes dormiam, plantavam, desenvolviam os afazeres diários, investigavam o mundo em parceria com os/as educadores/as. Para isso, não se limitavam à sala de aula, era o contato com a natureza e com o espaço que guiava a aprendizagem. Como afirma o Grupo Contrafilé, coletivo de investigação e produção de arte: “A reivindicação de estar embaixo de uma árvore não é apenas reclamar outros espaços para aprender, mas afirmar que tudo pode ensinar, que tudo que é vivo é uma escola. Essa percepção é o que liberta a terra e os corpos, é o que nos faz sentir que a terra não é de uns ou de outros, que a escola não é de uma diretora ou de um coordenador, mas que os espaços devem ser livres, assim como os corpos”.

Escola La Ruche

Outra experiência revolucionária de La Ruche foi juntar no mesmo espaço meninos e meninas, em uma época em que as escolas ainda eram separadas por gênero e que os currículos eram diferentes para homens e mulheres. Assim, é possível observar que nas escolas libertárias, tão importante quanto “o que se ensina” é “como se ensina”, ou melhor, o como se ensina é o que se ensina. Para o antropólogo Pedro Cesarino: “esses espaços de exceção implicam não só numa reversão da espacialidade e dos tipos de vínculos que as pessoas criam entre si, como também uma reversão no tipo de conhecimento que é produzido a partir desse vínculo”.

O aprendizado surge a partir da necessidade e do contato com o outro e com o mundo, toda experiência é construída em torno dos princípios da autogestão e da ação direta, com decisões tomadas em assembleias e por consenso, abrindo espaço para a autonomia e autodidatismo coletivo dos estudantes, para interdisciplinaridade, para horizontalização das relações professor-aluno e para o apoio mútuo e solidariedade entre as pessoas. As escolas libertárias eram em si uma forma de Ação Direta, uma aposta dos sindicatos e dos apoiadores do Anarquismo para promover uma transformação perene e propositiva na sociedade.

Rodrigo relatou também experiências de educação libertárias na América Latina e no Brasil. A Escola Moderna, por exemplo, que já possuía sedes no exterior, foi fundada em São Paulo no ano de 1912, onde, sete anos depois, viria a ser fechada a partir da alegação de que anarquistas associados à instituição haviam participado de um atentado com explosivos. Ela foi reaberta em 1920 com o nome de Escola Nova, persistindo apenas por três anos. A repressão às escolas libertárias é uma constante nas experiências mundiais, ao ponto que atualmente apenas uma instituição se declara anarquista, La Escuela Libre Paideia na Espanha.

O que sobrou das experiências libertárias? O que fica depois das ocupações?

Como pensar uma educação libertária no atual contexto brasileiro que apresenta retrocessos profundos, como o projeto “Escola Sem Partido”? O que sobra depois das experiências de autogestão vivenciadas nas ocupações? Como tornar isso mais tangível e perene? Essas e outras questões foram algumas das inquietações discutidas pelos participantes da oficina.

Para Rodrigo, já esbarramos em um fator crucial: o espaço. No caso das ocupações, embora tenham sido, na sua opinião, uma experiência de fato libertária, elas foram desenvolvidas em um espaço pertencente ao Estado, que não é exatamente sinônimo de espaço público. Justamente por isso, a educação libertária pauta transformações em outros campos da sociedade, tanto na esfera micro como fazendo oposição ao macro sistema político, ao Estado, à propriedade privada e ao Capitalismo.

Além disso, as dificuldades em desenvolver experiências de autogestão talvez estejam relacionadas à falta de referências e narrativas. Não por elas não existirem, mas porque foram violentamente silenciadas ao longo da história. Um exemplo disso foi Francisco Ferrer, criador da Escola Moderna na Catalunha, que foi perseguido, preso e fuzilado pelo governo Catalão. “Alguns tipos de protestos se encaixam na ordem e estão dentro do que o Capital e o Estado esperam. Mas quando falamos em processos autogeridos nos deparamos com uma vigilância e uma repressão violentas. Por isso, as ocupações das escolas públicas foram tão impactantes e, ao mesmo tempo, reprimidas”, explica Rodrigo.

Observamos que os sistemas representativos não têm dado conta das demandas sociais e políticas da população e, na verdade, o que se enxerga no cenário político brasileiro é um estreitamento das possibilidades de autogestão em propostas como a Reforma do Ensino Médio, que promove uma privatização mascarada do ensino, fato que discutimos com mais profundidade na cobertura do segundo encontro, cenários da educação em disputa.

Resta-nos a pergunta: como resistir? Como a demonstra o próprio movimento secundarista, as respostas só surgem quando estamos em movimento e o engajamento político precisa criar relações com a experiência vivida. Para o Grupo Contrafilé, “as ocupações contemporâneas produzem nos espaços todo um circuito de trocas que mostram que a vida poderia ser daquela forma. Mas não é que a vida poderia ser daquela forma em um tempo-espaço abstrato. Ela já está sendo daquela forma, porque existe uma retomada da conexão com o território (do próprio corpo como território, da escola como território e da cidade como território) que se faz ali […]. O poder faz de tudo para associar o que parece impossível, ou o que está nessa liminaridade entre ser ou ainda não ser, ao inexistente. Insistir em existir é, portanto, um modo de lutar”.

*Alexandre Suenaga é mestre em Ciências da Comunicação pela USP, onde realizou uma pesquisa-intervenção com jovens de escola pública, investigando suas relações com o mundo do trabalho. Atua e milita dentro dos campos da Comunicação e da Educação, com foco no trabalho com jovens e organizações da sociedade civil.

**GPEL – Grupo de Pesquisa Poder Político, Educação, Lutas Sociais

Referências:
Grupo Contrafilé – A Batalha do Vivo: Grupo Contrafilé, secundaristas de luta e amigos.
Sébastien Faure – A Colmeia: uma experiência pedagógica / Editora Biblioteca Terra Livre.

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