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Sentidos do trabalho para as juventudes passam por novas formas de organização e resistência, discutem participantes de seminário

Nos dias 13 e 14/09, o Sesc Bom Retiro, em parceria com a Ação Educativa, promoveu o Seminário Jovens e Trabalho: Dilemas, Invenções e Caminhos. O evento debateu alguns dos desafios enfrentados pelos jovens e pelas jovens do Brasil na luta por direitos no mundo do trabalho.

Por Alexandre Suenaga*

Já engoli sapo de patrão, até umas hora
E por não querer ser robô, fui mandado embora
E eu fui embora, atrás do meu sonho: viver da música
Cansei de dar meu talento pra aquela metalúrgica
Operário padrão dentro de uma fábrica
Quer saber o que eu fazia?
Fazia lágrima
Versos Vegetarianos. Inquérito

Diante das precarizações e da perda de direitos sancionadas pelas reformas trabalhista (Lei 13.467), do Ensino Médio (Lei n° 13.415/2017) e da previdência (PEC 287/2016), das transformações nas relações de trabalho e dos movimentos de resistência, o Sesc São Paulo encontrou um momento oportuno para debater as questões relacionadas às juventudes e ao mundo do trabalho.

A programação não só contou com a presença de pesquisadoras e pesquisadores dos campos da juventude e do trabalho, como também de coletivos, movimentos e projetos protagonizados por jovens, a fim de somar o debate acadêmico às vivências e lutas das juventudes brasileiras. Neste sentido, foram realizadas conferências, painéis de relatos e um cine-debate, além da programação associada que contou com a cobertura da Agência Jovem de Notícias da Viração; com o Labuta, jogo coreográfico que discute os sentidos do trabalho desenvolvido pelo Núcleo Tríade; com as intervenções artísticas dos jovens e das jovens participantes do Programa Juventudes do Sesc; e com a apresentação da banda formada pela Cooperativa de Artistas.

Além de colaborar na construção do seminário, a Ação Educativa esteve presente na programação: Maria Virgínia Freitas, coordenadora geral da instituição e especialista em juventude, e Gabriel Di Pierro, supervisor da área de Juventude, foram mediadores, respectivamente, da conferência Jovens, Trajetórias de Formação e Trabalho e do painel de relatos Participação, Ativismo e Trabalho, e Antônio Eleilson Leite, coordenador da área de Cultura, representou o Programa Jovem Monitor/a Cultural.

Ampliar os horizontes do trabalho é possível? Para quem?

O trabalho está diretamente relacionado à maneira como criamos a vida em sociedade e, por isso, não está imune às contradições e conflitos presentes nela. Ele é um microcosmos paradoxal que tanto pode significar a busca por identidade, emancipação e autorealização, quanto exploração, precariedade e desigualdade.

Ao entrar no Sesc Bom Retiro, logo nos deparávamos com o jogo Labuta, que convidava os/as participantes a agarrar um tijolo, transitar pelos diversos questionamentos escritos pelo chão, para então compor um muro deixando sua peça em uma das seguintes possibilidades: trabalho é reconhecimento, trabalho é enriquecer, trabalho é prisão, trabalho é liberdade, trabalho é ganha-pão ou trabalho é diversão. Essa atividade já introduzia os/as participantes nas múltiplas significações que o trabalho pode ter.

A fala de abertura de Carlos Artexes Simões, Diretor do Departamento Nacional do Sesc, veio para mostrar que trabalho não é sinônimo de emprego, ainda que nossa sociedade tenha reduzido essa atividade essencialmente humana, de transformação da natureza, das relações e do corpo, à exploração da mão-de-obra. “No entanto, o jovem ou a jovem brasileira tem o direito e a possibilidade de expandir seus horizontes de sentidos sobre o trabalho, sendo ele ou ela alvos de uma intensa exploração e precarização?”, questiona Maria Carla Corrochano, chefa do Departamento de Ciências Humanas e Educação da UFSCar.

A professora e pesquisadora começou sua fala questionando a pressão depositada sobre o/a jovem da contemporaneidade: “Geralmente as demandas das soluções sociais estão direcionadas aos/às jovens, mas qual a responsabilidade de nós, adultos e adultas, neste processo?”. Dessa forma, reafirmou a noção de sujeito de direitos evocada pelo Estatuto da Juventude e salientou o artigo 14, que garante ao/à jovem o direito “à profissionalização, ao trabalho e à renda, exercido em condições de liberdade, equidade e segurança, adequadamente remunerado e com proteção social”, e o artigo 15, que discorre sobre as responsabilidades do poder público na garantia desse direito. O direito à profissionalização, ao trabalho e à renda não está associado apenas ao acesso ao emprego, mas problematiza as condições dessa atividade, não perdendo de vista o direito à educação e as relações familiares.

Também a respeito do Estatuto da Juventude, Regina Novaes, pesquisadora do CNPQ nos temas da juventude, identidades e expressões culturais, afirma: “Existe um hiato entre o país legal e o país real”, especialmente diante do momento político que vivemos, de desmonte dos direitos conquistados pela população na Constituição Federal de 1988.  Para Lúcia de Oliveira, docente da Escola de Ciências do Trabalho do DIEESE, esse desmonte acontece facilmente, porque nunca chegamos a pleitear no Brasil a discussão a respeito da qualidade do trabalho, as taxas de exploração sempre foram altas, mesmo nos governos mais progressistas. “Ainda assim, é importante que lutemos pelos espaços institucionais, porque eles nos dão uma base mínima de negociação e de luta pelos direitos”, complementou Regina.

Seminário Jovens e Trabalho: dilemas, invenções e caminhos (Foto: Alexandre Suenaga)

Se trabalho é transformar o mundo…

O sistema de metabolismo capitalista e as instituições que o sustentam, como o racismo e o machismo, possuem uma capacidade enorme de adaptação às transformações sociais. Ainda assim, mesmo em contextos de flexibilização e precarização, assistimos o surgimento de novas formas de organização e resistência entre as juventudes.

As transformações dos sentidos do trabalho passam também pelo desejo que as juventudes têm de conciliá-lo com a luta política, especialmente quando nos deparamos com as interseccionalidades de gênero e de raça. Um dos exemplos dessa ideia apareceu no painel de relatos por meio da fala de Douglas Belchior, da Uneafro Brasil, movimento que combate o racismo e que parte do entendimento que a discussão do trabalho está intimamente relacionada ao direito à educação e ao acesso ao ensino superior público. Uma das iniciativas da Uneafro foi a criação de cursinhos pré-vestibulares comunitários que atendem jovens e adultos de escola pública, prioritariamente negros e negras. O cursinho não é apenas um espaço de preparação para o vestibular, mas de formação política e cidadã, respeitando e valorizando as manifestações culturais e as matrizes de pensamento e existência do povo negro.

Estas transformações não afetam apenas o trabalho, mas a própria maneira de levar adiante a luta política, como demonstrou Nataly Santiago do Levante Popular da Juventude. “O pessoal da velha guarda dizia que nosso movimento não iria para frente, por não defender uma pauta específica. No entanto, o Levante conseguiu crescer mesmo defendendo várias bandeiras, e em diversos territórios, porque os/as jovens querem novas maneiras de protestar. A militância precisa também ser prazerosa e criativa”, afirma Nataly.

O mercado inventado

“Se não tem mercado para nós jovens, a gente inventa um!”, afirma Thábata Letícia Moraes Da Silva, membro da Cooperativa de Artistas. Diante da alta taxa de desemprego e do desmonte das políticas públicas de fomento à cultura, as novas gerações buscam se valer de um atributo que sempre foi elemento de sobrevivência das populações mais pobres e periféricas: a criatividade. Além disso, outro fator evocado pelas representantes da Cooperativa de Artistas e que se mostra central na resistência das juventudes é a coletividade, “a única certeza que temos é que estamos juntas”, afirmam.

A Cooperativa nasceu da junção de quatro coletivos de teatro, cultura popular e circo que são frutos dos processos formativos do Instituto Pombas Urbanas, em ocupação do Centro Cultural Arte em Construção, galpão antes abandonado na Zona Leste de São Paulo. Os sonhos de alguns contagiaram outros e atualmente o Centro Cultural, localizado no bairro Cidade Tiradentes, é símbolo de resistências e efervescência cultural, com forte apelo ao território. Neste processo, Thábata diz ter encontrado o que deseja fazer para a vida e, com o apoio de seus e suas colegas, pode construir e inventar novas relações com o trabalho.

Felipe Damasco, artista proveniente de outra experiência de ocupação, a Ocupa Colaborativa em Jundiaí, ressalta: “ninguém nos ensinou a construir coletivamente, nós aprendemos no processo”. E ainda que estes/estas jovens busquem criar micro espaços de resistência, mostrando-se preocupados em não formar “bolhas”, é preciso participar também das disputas macro e dos espaços institucionalizados.

Seminário Jovens e Trabalho: dilemas, invenções e caminhos (Foto: Viração)

Dar conta disso, daquilo e mais um pouco: idealismo e materialidade

É impossível tratar a transformações nas relações e nos sentidos do trabalho de maneira dicotômica: é só precarização ou é só resistência. Estes processos acontecem ao mesmo tempo e muitas vezes se confundem.

“Dotar o trabalho de sentido e transformar o mundo” pode ser uma potência revolucionária, mas também é facilmente um sentido cooptado pelo mercado. Na ideologia neoliberal, o/a jovem entende que o sucesso ou fracasso de suas trajetórias particulares depende unicamente de seus esforços e assim são responsabilizados pelos fracassos sociais, políticos e econômicos de toda uma sociedade. A intensificação das rotinas de trabalho e a pressão subjetiva se escondem atrás de máscaras vocabulares que exigem do/da jovem proatividade, flexibilidade, inovação, liderança etc. Todas estas e outras exigências, somadas ao cenário de desemprego e precarização, causa o que Regina Novaes chama de “medo de sobrar”.

Isto é também o que Daniele Linhart, socióloga francesa, nomeou de “precarização subjetiva”: é preciso sobreviver, ter renda, ajudar a família, se profissionalizar, atender as exigências do mercado e ainda mudar o mundo, sem amparo de políticas públicas e com exposição aos contextos de violências contra a mulher, contra os negros e as negras, contra a população LGBT. Neste sentido, a única forma de resistir e existir é construir a certeza que as artistas da Cooperativa de Artistas encontraram: “Estamos juntas!”

Abaixo, o vídeo de cobertura do evento produzido pelos jovens e pelas jovens da Agência Jovem de Notícias:

Se teve jovem falando sobre juventude e trabalho a partir das suas experiências e olhares? Teve SIM! O mini documentário "Juventude e Trabalho" foi produzido por adolescentes e jovens da Viração durante a cobertura do seminário "Jovens e Trabalho: Dilemas, Invenções e Caminhos", realizado pelo Sesc Bom Retiro!A galera entrevistou especialistas em juventudes, como Regina Novaes e Helena Abramo, e jovens líderes de coletivos e movimentos, a partir do relato da vivência do Jonathan Moreira no universo do trabalho. <3

Publicado por Agência Jovem de Notícias em Terça-feira, 19 de setembro de 2017

*Alexandre Suenaga é mestre em Ciências da Comunicação pela USP, onde realizou uma pesquisa-intervenção com jovens de escola pública, investigando suas relações com o mundo do trabalho. Atua e milita dentro dos campos da Comunicação e da Educação, com foco no trabalho com jovens e organizações da sociedade civil.

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