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Nenesurreal: O grafitti não pode permitir que o sistema paute sua atuação

De aprendiz artesã com sua avó a uma referência do grafitti em São Paulo, Nenesurreal é homenageada no Dia do Grafitti de 2018. Ela conversou com a Agenda da Periferia sobre sua compreensão do lugar do grafitti nas disputas políticas da cidade, demonstrou que, apesar de ver como positiva a multiplicidade dos estilos e técnicas, não concorda com o fato de muitos grafitteiros não pautarem a sua atuação “a partir das lutas sociais”.

Nene ressalta a importância de, em 15 anos, ser a terceira mulher e a segunda negra homenageada no evento. Diz ainda que faz questão de ir para além do grafitti, buscando sempre colocar em destaque a resistência da mulher negra como foco e de evidenciar a inviabilização das mulheres na cena do grafitti.

Na entrevista abaixo, além da homenagem e da análise a respeito do grafitti nos recentes acontecimentos políticos, Nene conta parte da sua trajetória e como ela avalia sua caminhada.

Qual a importância de realizar esse evento do “Dia do Graffiti”?
Em 15 edições, eu sou a terceira mulher e a segunda mulher negra a ser homenageada, aí está a importância do evento. Lembrando que já vivi mais de meio século. Indo além do graffiti, o que está na frente é a resistência da mulher negra, das mulheres em geral porque a cena feminina do graffiti é grande e ainda hoje mulheres são invisibilizadas.

São vinte coletivos que participam do Dia do Graffiti. Como é o estilo, as diferentes abordagens e técnicas do graffiti em São Paulo? O que tem de unidade e o que tem diversidade no graffiti?
O graffiti em São Paulo é diverso. Falar de técnicas e estilo contradiz o que penso. Olho o graffiti como parte da cidade, olho atitude e verdade nos trampos. Acho massa a quantidade de técnicas, mas paro e olho com mais atenção quando vejo mensagens e emoções. No graffiti não existe uma unidade. Mesmo com técnicas parecidas, há uma diversidade. Se cada emoção é única, cada graffiti só pode ser único, seja qual for a técnica usada. Como ideologia, a unidade do graffiti deveria ser a partir das lutas.

Apesar de nunca ter saído da pauta, o graffiti ganhou um nova centralidade, em São Paulo, devido a política do prefeito Dória. Como foi esse processo de disputa? Como está a situação agora?
Não acho que ganhou centralidade, vejo que continua bem parecido, com alguns graffiteiros ligados à prefeitura Dória como já estiveram às anteriores. Vejo sempre os mesmos e como não participei de reuniões, não posso ser categórica em afirmar qual é o processo. Não percebo como de disputa, mas como um domínio, um “monopólio”, já que as questões se criam ao redor dos “donos” dos muros/espaços. Como costuma dizer Debora (Mães de Maio), “são os editais que não são para ‘’editodos’”. A cena do graffiti em SP hoje é essa. São as divisões: o centro de São Paulo e as margens de São Paulo, beneficiando quem está ligado ao sistema da atual gestão, como sempre esteve ao das anteriores. Então pensando em centralidade, precisam rever muitas coisas: posturas, situações que oprimem e como fecham com o sistema.

Qual o lugar do Graffiti na conjuntura política atual?
Essa pergunta me leva de volta à resposta que dei na anterior, porque vejo poucos graffiteiros usando graffiti como um ato político. O que me preocupa é que se permita que o governo/sistema tome conta, já que a ideologia do graffiti é rua, é romper com o sistema.

Conta um pouco da sua história, da sua trajetória que já tem mais de duas décadas no grafitti. Quais os principais momentos ou fatos que mais te marcaram nessa caminhada?
Comecei minha trajetória artística em vivências diárias, obrigatórias que anos mais tarde me trariam aprendizado na área, sendo aprendiz de artesã com minha avó que contava histórias durante as atividades, como crochê, bilro, macramê, bijuterias etc. Hoje estas atividades me fazem multiplicadora, transformado arte em economia solidária. Sou mulher negra, periférica, mãe, avó, artista plástica, artesã, educadora social, escultora, pintora, artista visual e graffiteira, criadora da grife NeneSurreal (roupas pintadas na técnica do graffiti para todas as mulheres, especialmente para as plus size).

Desde 1996, através da minha arte, respondo às diversas expressões das questões sociais, desigualdades de classe, gênero e sobretudo as injustiças contra mulheres negras periféricas. Na intenção de refinar técnicas e estilo próprio, busquei na vida acadêmica respostas para algumas de minhas questões. Saí da área da saúde, na qual trabalhava até então, para me dedicar integralmente à arte. Realizo atualmente diversas parcerias e participações em exposições, por todo território nacional, destacando-se: Centro Cultural Banco do Brasil, Casa do Hip Hop, Ação Educativa, Casa das Caldeiras, Festival de Arte Negra (BH), Encontro Internacional de Mulheres: Cores do Amanhã, entre outros.

Como forma de reconhecimento, fui ganhadora do Prêmio Sabotage em 2016 e nesse mesmo ano participei do documentário Mulheres Negras: Projetos de Mundo, sob direção de Day Rodrigues e Lucas Ogasawara. Pela minha vivência, sou convidada a participar de atividades voltadas ao empoderamento da mulher negra, como desfiles e palestras relacionados a situações de racismo, machismo e preconceito contra as mulheres na arte urbana e na moda, devido ao meu trabalho de resistência. Ao longo de minha trajetória também atuo como organizadora e curadora de eventos com diversidade cultural, destacando e priorizando enaltecer a mulher negra.

Fonte: Agenda Cultural da Periferia

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