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Tudo isso nos pagode da cidade

por Francisco Aguiar, o Chico Médico

Nós, pessoas apaixonadas por rodas de samba, estamos sempre atrás dos bares onde elas acontecem. Comecei a gostar disso no Botekão, do querido Osvaldão. Aquele boteco deixou saudade em muita, muita gente… Quando acabou, lá por 81, e nem vou ficar arriscando com datas porque não guardo mais nenhuma, ficou todo mundo meio órfão… Pra onde é que a gente ia agora? Bom, o Osvaldão se associou ao Leivinha (aquele mesmo da polêmica do gol de mão no Campeonato Paulista de 1972, 14 anos antes do Maradona) e abriram um bar na Henrique Schaumann, o Balancê. Era bom demais, todo mundo correu pra lá. Maior que o Botekão. O Osvaldão tinha um savoir faire de dono de bar, um jeito de receber os clientes, uma cortesia, uma simpatia, que faziam você se sentir em casa. No final da noite, os últimos fregueses ainda ganhavam um chopp de brinde!

Mas, infelizmente, os bares são como gente: nascem, vivem e morrem. Um dia o Balancê acabou também, deixando sem abrigo uns 200 adeptos do samba, pelo menos. A salvação veio na forma do Bar Sete (de setembro), mais conhecido depois como Bar do Buru. Ficava numa esquina florida e festiva: Girassol com Purpurina, no coração da Vila Madalena. Era ainda a velha Vila dos portugueses, em que havia até times de várzea – o campinho era onde está hoje o BNH. Um desses times era justamente o Sete de Setembro, e o bar era a sede da agremiação. Hoje nem em filme você vê um lugar assim: o bar tinha estojos de dominó para distribuir entre os frequentadores (normalmente quem jogava eram os velhinhos) e também uma lousa onde eram marcadas as datas dos jogos de futebol. Pra completar, um dos donos, tio do Buru, era o Zé Leiteiro, um português com pinta de galã que tinha ganhado a vida vendendo leite, percorrendo as ladeiras da Madalena com sua vaquinha! O bairro era tão calmo que no sábado à tarde o Buru colocava mesas no meio da rua Girassol, vocês acreditam? Mas se até o Paraíso acabou, um dia ficamos também sem essa espécie de clube do samba (até hoje o bloco criado pelo Buru desfila no Carnaval: o Bando Sete).

Pelo que escrevi aí em cima, dá pra entender quando a gente diz que os bares são como famílias: deixam descendentes, que por sua vez seguem os costumes que aprenderam com os mais velhos. Desses costumes, os mais importantes são as tradições da roda de samba. É através delas que o samba se conserva e segue adiante, como nos ensina o jornalista Roberto Moura em seu livro “No Princípio Era a Roda”. Nesses lugares conheci meus professores, as pessoas que têm o samba nas veias. Desses mestres, faço questão de mencionar o mais generoso e importante de todos: um colega de trabalho no Hospital das Clínicas (daí eu ser o “Chico Médico”, que considero meu apelido definitivo). É o Luisão (Luiz do Patrocínio), meu amigo até hoje. Foi ele quem me levou ao Botekão, que me apresentou, entre outras, as gravações de Cristina Buarque, Roberto Ribeiro, Candeia, Dona Ivone Lara, Aniceto do Império, Babaú da Mangueira, Ataulfo Junior, Mano Décio, Cristiano Fagundes, Délcio Carvalho, João Nogueira (eu não conhecia!!!) mais toda uma constelação brilhante de sambistas e chorões dos subúrbios. Gente que promovia reuniões de fundo de quintal; a feijoada tinha de esperar, porque quando o almoço era servido ninguém queria sair da roda. Saudades do Xavier, Cabo Edésio, seu João Batista, Carioquinha, Geny (mãe do querido Odair Menezes). Do Cidão, que tocava um pandeiro sem platinela (quem já viu isso levanta a mão!). Foi assim que fiquei sabendo do tal Sorriso Negro. Ele mudou a minha vida.

Com essa paixão pelo samba, estava na cara que um dia eu ia querer ter o meu grupinho, cantar em bares, semi profissionalmente que fosse. Estava escrito… Então um dia montei uma banda com amigos chegados, apaixonados como eu: Pelé do Cavaco, Quica, Paulinho do Violão, Mário Mammana (tem sempre um italiano no samba)… O primeiro dono de bar que arriscou acolher um cantor tão inexperiente como eu foi o Zuca, lá numa travessinha da Fidalga, perto de onde é agora o Bar Samba. A casa era frequentada pelo Oswaldo, puxador do Camisa (pai da Fabiana Cozza), pelo Grego, que nos deu a colher de chá de apresentar, recém saído do forno, o “Coisa Boa é para Sempre”, hoje glorioso hino da Gaviões.

No começo eu me estressava demais. Nos intervalos da música precisava ficar quinze minutos sozinho, não conseguia falar com ninguém, atordoado. Mas a paixão era maior: continuei errando, mas fui perdendo a vergonha. Quando aquela roda acabou, não sosseguei até arrumar outro cantinho. Lá fomos nós pedir guarida no Bar do Bilu, ali perto do Rei das Batidas, sempre numa travessa escondida… Aliás, aproveito para sugerir a você que sonha ter um boteco de samba: prefira as travessinhas e becos. Carros e ônibus muito perto não combinam com samba.

As rodas vão agregando gente, quase sempre gente maravilhosa. Com o tempo aprendi que isso faz parte do DNA das rodas de samba: através de um mecanismo misterioso elas selecionam os melhores… Os antigos amigos de samba são amigos até hoje; isto quando não viram parentes, compadres, afilhados, namoradas:  Yara, Railídia, Fernando Szegeri, Paulinho Timor, Almeida, Caio Ramos, Alexandrino… E os amigos novos, que continuam chegando: Renata, Favela, Paulão Porto, Aidê, Maurinho de Jesus… No Botekão conheci minha primeira mulher, Valéria, ouvindo ela cantar: “Vai passar, esse meu mal estar, esse nó na garganta…” (“Minha Filosofia” – Aloísio Machado). Fichário debaixo do braço, ela ia do colégio para o samba. Samba que faz essa mágica de aproximar pessoas. Perdi a conta das vezes em que alguém me puxou pelo braço nos intervalos da música pra dizer que conheceu esposa ou marido na minha roda (enquanto vou recordando tudo isso, vou chorando, me emocionando, chorando mais um pouquinho)…

O Bar do Bilu já era mais frequentado. Uma espécie de berçário: ali nasceu muita coisa. Lá reencontrei Mazinho Xerife: inesquecível intérprete. Ouvir essas pessoas ao vivo e a cores é uma experiência que só a roda de samba te proporciona: nada a ver com palco ou música gravada – é outro brilho! Lá voltei a ver a Velha Guarda do Camisa, lá conheci Sílvio Modesto, Madureira, Murilão… O grupo de (paulistas) compositores do samba da Mangueira de 98 (Chico Buarque) também se juntou a nós: Nelson Csipái, Villas, Bal, Zé Roberto, Bariri…  E dizer que São Paulo é o túmulo do samba? São Paulo jamais coube entre as quatro paredes da Boate Cave, onde Vinícius disse essa besteira… Uma cidade com tantos negros nunca ia ser túmulo de nada…

No bar do Bilu, reuni o grupo da minha vida, batizado de “É do Baú”; a formação: os saudosos Carlão (no 6 cordas) e Cebolinha (na timba), Roberto Qualidade no pandeiro, Helinho Guadalupe no cavaco. Todo mundo queria ser acompanhado por essa seleção… O nome do grupo era homenagem ao baú de LPs que tenho até hoje em casa: quando você pensa que já cantou tudo, vai remexer o baú e descobre mais uma maravilha! O repertório de samba não tem fim… Helinho, carioca de Guadalupe, meu parceiro e irmão querido, hoje vivendo em Sampa, trazido  pelos ventos tépidos do Morro Doce, trabalhava no Hora do Povo, jornal do MR8. Lá havia uma cariocada danada. Cidinha e João Paulo, por exemplo. Esses dois conheciam a maior parte dos sambistas do Rio. Quando artistas cariocas vinham fazer shows em São Paulo acabavam, pela mão desses amigos, dando canja na nossa roda. Parecia um sonho: Beth Carvalho, Luiz Grande e Barbeirinho de Jacarezinho, Surica, Moacyr Luz, o grande Luiz Carlos da Vila, Dorina, Mauro Diniz, Juliana Diniz… Nessa altura já tínhamos começado outra roda (cada vez mais perto do Rei das Batidas). Um novo bar, com um nome atrevido: Canto Brasileiro, pilotado pelo Sergio John e pelo Guedes. Canto Brasileiro, nem mais nem menos. Tremenda responsa! Foi nesse lugar que percebi outra característica das rodas: por mais que houvesse mulher bonita e um monte de marmanjo mal intencionado, por mais que o pessoal bebesse, nunca saía briga! Nunca! E olha que eu já estava há uns 20 anos naquela vida. O samba traz a paz, gente!

Dali saímos para uma casa grande no Itaim, ainda com o nome de Canto Brasileiro. Serginho Meriti, Alvinho da Mangueira, Nelson Rufino, Haroldo Costa nos visitaram lá. Quando resolveram transformar o lugar em centro comercial, Cidinha e João Paulo decidiram abrir o seu  próprio bar. Fiquei muito pouco tempo nesse novo lugar, mas  o nome que eu sugeri ficou: Traço de União (2003). O bar funciona até hoje, junto ao Largo da Batata. Esse nome tinha a ver com a proposta de trazer o samba para outros tipos de público e com uma homenagem a um disco, uma ideia. Traço de União é um dos mais lindos LPs de samba jamais gravados. Nasceu de um sonho de Beth Carvalho: cada canção é composta por uma dupla – um sambista e um músico da MPB. Ivone Lara e Caetano (Força da Imaginação); Camarim (Cartola e Hermínio Bello); Coração Poeta (Nelson Cavaquinho e Paulinho Tapajós); Presente da Natureza (Luiz Carlos da Vila e Fátima Guedes), etc. Sonho realizado, como poucos; não lembro de terem feito nada igual depois.

Cabe aqui um pequeno comentário sobre a suposta rivalidade entre o samba paulista e o samba carioca. Nunca achei que essa história fizesse sentido. Eles têm caras um pouco diferentes, mas se o samba for bom o coração do sambista bate forte do mesmo jeito. A emoção de cantar Desperdício de Paixão (Gudim – P. C. Pinheiro), Dia Seguinte (Carlinhos Vergueiro e J. Petrolino) ou Reencarnação (Geraldo Filme) é a mesma de cantar um belo samba de Dona Ivone Lara. E falando em samba paulista, em 2002 fui convidado para gravar 3 faixas no songbook do grande Paulo Vanzolini: Acerto de Contas (quer nome melhor para a gravação do conjunto de uma obra?). Quase caí de costas com o convite e até hoje acho que andou nisso o dedinho de minha amiga Ana Bernardo, ilustre descendente de um dos fundadores dos Demônios da Garoa. Obrigado, Ana! É bom demais fazer parte da história de um dos nossos mais ilustres compositores!

Em 2004 eu estava de novo sem teto, mas não só nem mal acompanhado; junto comigo estavam Graça Braga, a cantora dos 15 nomes, dois compositores do Samba da Vela – Paquera e Edvaldo Galdino – e o boêmio-sambista-carioca-da-gema Carlos Victor.  Num fim de semana essa turma saiu zanzando pelo Centro à procura de um novo ninho até topar com o bar da D. Rafaela, numa rua com nome ilustre – João Guimarães Rosa – também conhecida como “rua da feira” (ao lado da Praça Roosevelt). Naquele domingo nascia o glorioso “Você Vai se Quiser”. E assim, pude acrescentar ao meu currículo a participação na criação de mais uma roda de samba! Foi a última. De lá pra cá, passei a aproveitar a roda dos outros. Tanto mais que o Fernando e a Railídia, comandantes da minha banda predileta, juram por todos os santos que o samba que eles fazem no Ó do Borogodó é filho da nossa antiga roda, lá do Butantã.  A tal banda atende pelo mimoso nome de “Inimigos do Batente” (mais que uma banda, uma declaração de princípios). Quase nunca pago para entrar, por ordens expressas da dona do pedaço, a poderosa Stefânia. São momentos em que me sinto muito importante, como estou me sentindo agora, ao receber esse inesperado convite da Ação Educativa. A Ação merece ser inscrita na família dos lugares eméritos que abrigam e dão força aos sambistas da cidade, sendo portanto parente próxima de todos os botecos que eu mencionei.

Pra acabar, se você conseguiu chegar até aqui, preciso de mais um parágrafo: quero falar de um artista. Fazia uns 2 meses que havíamos começado a funcionar lá na Roosevelt. Um belo dia, o samba comendo solto, aparece por lá um senhor baixo, grisalho, simpático. Sem muita conversa e sem atrapalhar ninguém, começou a fotografar: subiu nas cadeiras e nas mesas, deu voltas e mais voltas, bem à vontade. Parecia que tinha feito aquilo vida toda. E tinha mesmo. Esse novo presente que os orixás do samba nos traziam era o grande fotógrafo Samuel Iavelberg! No sábado seguinte, o bar estava todo decorado com as fotos: lindas, em branco e preto. Nada mal para uma roda: com 2 meses de idade e já era tema de uma exposição fotográfica! Algumas delas estão expostas hoje, aqui na Ação Educativa. São surpreendentes! Imagina-se que a forma de registrar uma roda de samba, um evento com tanta música e movimento, seja o cinema. Mas Samuel consegue o impossível: suas imagens estáticas captam toda a vibração, a alegria, o ritmo, a transfiguração dos sambistas. A graça e a beleza da Ainá, da Kelly, da Graça, da Fabi, da Valéria, de Maria Inês dançando com o seu estandarte na mão. Um mistério que eu vinha tentando decifrar há tempo, até que outro dia, lendo um texto de Eucanaã Ferraz, que comenta  justamente o trabalho de um fotógrafo genial – Chichico Alkmim – penso ter encontrado uma explicação aceitável. Eucanaã menciona um romance de um certo George Eliot, intitulado “Adam Bede”, que fala “de uma beleza que não reside em nenhum segredo de proporção, mas no segredo da profunda empatia humana”. Vendo o trabalho de Samuel você vai entender o que eu quero dizer.

P.S. Escrever este texto foi mais uma alegria que o samba me proporcionou.

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