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Imprensa Negra Paulista: Uma história de resistência

Por Flora Beatriz e Paulo Sousa, da Agência Jovem de Notícias em São Paulo

A imprensa brasileira nunca deu a visibilidade necessária às reivindicações da população afrodescendente. Assim, em meados do século XIX e no início do século XX, revistas e jornais elaborados pela população negra para a população negra surgem como ferramenta de luta, mobilização e discussão da posição do negro pós-abolição no Brasil.

No seu conjunto, as produções por parte desse grupo ficaram conhecidas como a Imprensa Negra Paulista. Esse foi o tema da oficina Imprensa Negra: resistência editorial ontem e hoje, com o jornalista Nabor Junior (36), fundador da revista O Menelick 2º Ato. O evento fez parte da 3ª Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular da Ação Educativa, que aconteceu na última semana de julho.

Os participantes da oficina tiveram a oportundade de conhecer a fundo a história da Imprensa Negra Paulista, que se tornou um instrumento para discutir, de maneira igualitária e estruturada, a questão do negro no Brasil. Uma imprensa que não se calava, com ideais de integração e conquista, procurando denunciar os casos de racismo e fortalecendo a identidade da população negra brasileira.

Algumas publicações eram pequenas notas que não tinham apelo para consciência racial de seus leitores, mas que tratavam especificamente da população negra, tais como casamentos, festas, fofocas, mortes e atualizações sobre os espaços de sociabilidade e fortalecimento de laços, como as agremiações e associações.

A Imprensa Negra Paulista era uma ferramenta para dar visibilidade às ações da população negra no estado. Além disso, ela se preocupava com a importância da educação para a ascensão social do negro. Entidades como a Frente Negra Brasileira empenharam-se na reeducação dos negros incentivando-os a concorrer com brancos em todas as esferas sociais, afirmando que se o Estado não oferecia educação, os negros unidos teriam que fazê-lo.

Outro destaque é a revista Raça Brasil, que em sua 1ª edição vendeu 300 mil exemplares sendo a revista negra de maior alcance e penetração na sociedade brasileira. A publicação mostrou ainda que, mesmo que existam problemas mais profundos, não se exclui a possibilidade da produção de conteúdos mais diversos, como a valorização estética do negro, por exemplo.

Nabor Junior, fundador da revista O Menelick 2º Ato

Do impresso para o digital
Atualmente, a internet é uma grande aliada da população negra. Há a possibilidade da comunicação de forma segmentada através de iniciativas individuais, produção coletiva e notícias das comunidades na web. Existem também espaços de força e difusão de pensamentos críticos, que têm como foco a diversidade com forte teor reivindicatório e político.

Hoje em dia a Imprensa Negra, em razão da apropriação dos jovens e também da utilização das redes sociais, tem um outro significado e uma outra proporção. “A população jovem e, principalmente a população jovem, negra e feminina, vêm realizando o uso desses meios com bastante competência, trazendo textos, notícias, reflexões, imagens e até mesmo a autoafirmação”, conta Nabor Junior (36), jornalista e fundador da revista O Menelick 2º Ato.

“A imprensa negra no meio físico tem, talvez, os seus dias contados. Provavelmente ela não vai desaparecer, mas ela tem certas dificuldades porque exige uma contrapartida financeira, relativamente grande pra nossa realidade.” afirma Nabor.

Por outro lado, segundo o jornalista, as mídias sociais e as informações que passam e circulam pela rede acabam ocupando o espaço do impresso. “Primeiro por [as redes sociais] ter uma abrangência maior do que o meio físico e segundo por conseguir dialogar de fato com a população jovem. “Então, acho que a iniciativa de jovens, mulheres, negras na rede tem sido a grande revolução da imprensa negra no século 21”, conclui.

A Revista O Menelick 2º Ato é uma oportunidade para que a intelectualidade negra se manifeste. Políticas de acesso e fomento às políticas públicas são expostas. A publicação tem uma periodicidade não cotidiana e publicações de textos mais reflexivos e atuais.

Em todos esses anos de luta e resistência muito foi feito pela população negra através da Imprensa Negra. No entanto, para além dos organismos combativos é preciso mudar as demais estruturas, sobretudo as educacionais. Gabriela Beraldo (22), jornalista e participante da oficina, comenta sobre a carência do tema na universidade.

“Gostei muito da aula sobre imprensa negra porque na faculdade de jornalismo foi uma temática que se ela foi abordada, ela foi minimamente abordada. Um buraco na minha educação foi preenchido.”

Os desafios da imprensa negra continuam os mesmos dos enfrentados no passado, seguindo como revista combativa através das temáticas. Para nós, portanto, fica o desafio de ocupar cada vez mais as plataformas digitais e utilizá-las para reivindicar políticas de fomento à educação e consciência racial.

Cobertura Educomunicativa
A Agência Jovem de Notícias realizou a cobertura educomunicativa da Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular, realizada pela organização sem fins lucrativos Ação Educativa. A atividade foi realizada em parceria entre a Viração e a Ação Educativa e contou com a participação de quatro adolescentes, com o apoio de profissionais da Viração.

Fonte: Agência Jovem de Notícias
Fotos: Bárbara Lobato

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