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Projeto Arte na Casa completa 10 anos de atuação com publicação de arte-educadores/as

Livro pretende discutir metodologias e práticas de arte-educação com adolescentes privados de liberdade

Existem hoje no Brasil cerca de 200 mil adolescentes cumprindo medida socioeducativa. Mais de 40 mil deles em regime de internação, uma forma de encarceramento, em especial da juventude negra e pobre das periferias urbanas. É nesse amplo cenário político e social que o projeto Arte na Casa: oficinas culturais atua.

Desde agosto de 2008, a Ação Educativa realiza oficinas de arte e cultura, de segunda a quinta, para 1200 adolescentes que cumprem medidas socioeducativa de internação em 20 unidades da Fundação CASA na cidade de São Paulo e no município de Ferraz de Vasconcelos.

Em medidas socioeducativas, o cenário se agravou nestes últimos 10 anos de Projeto. Aumento de adolescentes internados em centros de privação de liberdade por atos infracionais que, segundo a lei, não seriam casos para internação, sucateamento dos espaços de atendimento e casos de violações denunciados internacionalmente, conta Fernanda Nascimento, coordenadora do Arte na Casa.

Ao longo de 10 anos, as inúmeras transformações que ocorreram no cenário das medidas socioeducativas também influenciaram mudanças no projeto, dentre elas a centralidade da sistematização das práticas e conhecimentos dos educadores/as. Dessa centralidade, surgiu a publicação “Na linha tênue – experiências em arte-educação em privação de liberdade”, que tem como um dos objetivos ser um canal de diálogo entre profissionais que atuam no campo.

Mergulhar nestes textos aguçou o sentimento de urgência que nos impulsiona em direção a rodas singulares como esta, que reúne artistas que se transmutam em arte-educadores e, por puro desassossego cidadão, inauguram diálogos horizontais em um campo marcado pelo isolamento, silêncio e submissão. Nos fundamentos e processos de trabalho descritos na publicação emergem novas abordagens da arte-educação no enfrentamento ao encarceramento em massa e defesa do direito à juventude, relata Ednéia Gonçalves, coordenadora executiva da Ação Educativa, no prefácio da publicação.

Resultado de um ano de reflexões sobre o processo de trabalhar em uma organização da sociedade civil cuja atuação é a garantia de direitos e ensinar arte para adolescentes privados de liberdade, o livro se norteia com perguntas que são fundamentais para entender esse trabalho: qual é o papel da arte dentro da Fundação CASA? Como trabalhar uma arte libertadora nesse espaço?

O exercício da escrita nos permitiu reflexões sobre as nossas práticas, e como melhorá-las. Também possibilitou a compreensão do valor contido no trabalho de cada pessoa da equipe de arte-educadores/as. Neste livro, há um conjunto de textos comprometidos com o trabalho educativo, voltado para pensar uma sociedade mais justa e igualitária, conta Gal Souza, coordenadora do projeto.

O livro é dividido em quatro partes, que dialogam de forma próxima com as oficinas culturais: artes visuais (escultura, desenho e pintura, história em quadrinhos, rádio e TV, fotografia, e cinema e vídeo), artes do corpo (capoeira, e teatro e dança afrobrasileira), artes do som (musicalização e percussão) e artes da palavra (rap e literatura). Cada arte-educador/a constrói suas narrativas a partir da ampla experiência vivida nos centros, na reflexão metodológica e no comprometimento com a garantia dos direitos dos adolescentes. Parte dessa equipe foi para a universidade aprender suas respectivas profissões, outros aprenderam na prática diária e nos espaços culturais construídos nas periferias da cidade, em cursos livres e em outros lugares e formas de aprendizagem.

É nesse contexto que 20 arte-educadoras/es fazem da sua arte a mediação entre o “mundão”, o que a humanidade produziu historicamente e o que se produz de trás das paredes da Fundação CASA. São infinitas as possibilidades de belíssimas criações, ainda que dentro desse ambiente tão hostil […] Esses/as educadores/as se propõem a fazer educação libertadora com jovens que para muitas pessoas são “casos perdidos” e merecem estar presos. A privação da liberdade é um crime contra a juventude. Esses/as jovens deveriam estar na rua, no teatro, na escola ou jogando futebol, tendo aulas de teatro, fanzine e desenho, explica Fernanda.

Para Ednéia, os textos trazem a potência do trabalho trilhado pelas/os arte-educadoras/es, expressa como um posicionamento político coletivo, que aborda, inclusive, o direito à singularidade: ver cada um desses jovens como únicos em sua trajetória e forma de se colocar no mundo.

Plantar liberdade de identidade no paraíso da padronização emerge como ponto comum na construção de percursos metodológicos que, sem negar a multiplicidade de linguagens artísticas, tem como ponto de partida provocações direcionado à valorização e mobilização de saberes provenientes de diferentes territórios e histórias de vida ocultos sob camadas e camadas de opressão.

O livro “Na linha tênue” foi lançado em julho, durante a Semana de Formação em Direitos Humanos e Educação Popular de 2018. Atualmente, sua primeira edição encontra-se esgotada. A Ação Educativa está planejando novo lançamento, ainda nesse semestre, com nova reimpressão e disponibilização da publicação virtualmente.

O projeto Arte na Casa

Quando iniciamos ainda não tínhamos a dimensão do que era trabalhar com arte na Fundação CASA ou de como fazê-lo. Tantos questionamentos, dúvidas e surpresas surgiram no primeiro ano do Projeto que nos vimos diante da necessidade de refletir sobre dois temas: arte-educação e medida socioeducativa. Praticamente iniciamos do zero, quando se pensa o ensino de arte nesse contexto, após longas pesquisas pouco encontramos sobre o tema para subsidiar nossas/os arte-educadoras/es, relembra Fernanda.

Para estabelecer uma atuação coerente com seus princípios, a Ação Educativa desde o início atuou junto à Fundação CASA para garantir, entre outras questões, melhores condições de trabalho para os/as arte-educadores/as. A inclusão de três horas de formação na carga horária semanal dos/as educadores/as reservou um período tanto para o desenvolvimento de novos estudos como para o compartilhamento de experiências, reconhecendo-os como produtores/as de conhecimento e valorizando os saberes que estão na base de suas propostas de aula. Nos encontros formativos que ocorrem às sextas, se discute arte-educação, direitos humanos, concepção de educação, conceitos de arte, Estatuto da Criança e do Adolescente, gênero, sexualidade, trocas de experiências didáticas e metodológicas.

Desde seu início, o convênio passou por duas renovações, sendo a última em 2016 celebrada nos termos do novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil. Ao longo desses 10 anos de atuação, mais de 150 educadoras/es e técnicas/os passaram pelo Arte na Casa. Um importante destaque dessa trajetória foi o lançamento do livro “Arte na Medida”, de 2012, que reuniu os planos e estratégias pedagógicas dos/as educadores/as. Espera-se uma nova edição ainda em 2018.

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