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“Marx está aonde existe ainda a insistência na vida, a liberdade e a alegria da luta”, afirma a antropóloga Alana Moraes

O ano de 2018 marcou o bicentenário de Marx. Enquanto alguns ainda insistem em decretar o seu fim, outros o elegem como um inimigo perigosamente vivo. O Centro de Formação: Educação Popular, Cultura e Direitos Humanos e as Terças Insurgentes de junho apresentam o curso “Marx Devorado”, que pretende, longe de preservar as cercas dogmáticas em torno de seu pensamento, honrar a inteligência própria daqueles que se deixam arrastar pela paixão das lutas – as de ontem, as hoje, as de sempre.

Alana Moraes e Jean Tible serão os formadores desse ciclo. Alana é antropóloga com graduação em Ciências Sociais pela UFRJ, mestrado em sociologia e antropologia pela mesma instituição. Atualmente é doutoranda no Museu Nacional-UFRJ e desenvolve uma pesquisa sobre as relações entre as novas configurações do trabalho, gênero e formas de politização em ocupações urbanas na periferia de São Paulo. Jean é militante e professor de ciência política da Universidade de São Paulo. Autor de Marx selvagem (São Paulo, Autonomia Literária, 2019 – 4ª edição) e do cordel marx indígena, preto, feminista, operário, camponês, cigano, palestino, trans. selvagem (n-1 edições, 2019).

Leia a entrevista com Alana e Jean sobre o pensamento de Marx:

1. No que consiste, primordialmente, os principais pontos do pensamento de Marx?
Marx é um pensador enorme e é possível chegar até ele por muitos caminhos. No ciclo Marx Devorado vamos seguir os fios condutores que nos levam ao Marx pensador das lutas. Pensar em um Marx perigosamente vivo, capaz de ser interpelado ainda por situações de luta e pelos corpos que estão implicadxs na fabricação de outros mundos, outras relações com o mundo. Um Marx que recusou as fronteiras nacionais (internacionalista!); um Marx contra o Estado e pela auto-organização da classe, uma classe, aliás, que está em permanente fazer-se; um Marx contra o capitalismo e sua democracia apodrecida, o Marx da desobediência criadora.

2. Por que o termo “devorado” logo após o nome do autor?
Queremos propor a antropofagia como “fio metodológico”. A ideia é poder experimentar o pensamento de Marx e não explicá-lo. Pensar esse elemento do fogo – que é ao mesmo tempo tão importante para os ameríndios como marcador da origem da cultura (o começo do mundo indígena), mas também para as barricadas das revoltas, para as fogueiras das bruxas que se reuniam para experimentar suas curas; para as ocupações de terrenos vazios que surgem no meio da noite; é o fogo das cozinhas de migrantes, das mulheres das periferias do mundo, dos cafés da manhã oferecidos pelos Panteras Negras; o fogo que convoca e que inspira conspirações. Devorar também traz o sentido ameríndio mesmo da antropofagia, de comer e honrar o outro para tornar-se ainda mais potente. Queremos desviar da pergunta (moderna e ocidental) sobre Marx estar morto ou não para nos perguntar como herdar esse Marx vivo e selvagem.

3. Por que podemos considerar o pensamento de Marx insurgente?
Marx é um pensador da revolução. Dedicou sua vida, uma vida difícil e trágica, para compreender o mundo que vivia. Era um pensador implicado no mundo, afetado pelos seus ruídos. Não há outro fio condutor possível para se compreender o pensamento do filósofo que não seja sua fabulosa disposição de se deixar transformar pelo movimento das revoltas e por outras formas, não capitalistas, de organização da vida. Tecelões na Silésia, comuna de Paris, as lutas anticoloniais e as experiências indígenas, seu interesse pelas formas comunais de propriedade na antiga Rússia agrária. Marx era um cartógrafo da revolta e de suas formas incertas. Não existe uma cartilha da revolução em Marx, o que existe é esse abrir-se para o mundo que vivemos e para suas desobediências.

4. Como o pensamento de Marx pode colaborar para entendermos a atualidade e agirmos sobre ela?
Acreditamos ser possível pensar em um Marx  crítico da modernidade e seus aparelhos conceituais. Por diversas vezes, Marx trata o capitalismo como um “mundo enfeitiçado”, abstrações e fetiches capitalistas atuando como feitiços do pensamento. O comunismo no manifesto aparece cindido entre delírios do progresso técnico da sociedade industrial burguesa e uma força imanente que enxerga no domínio das relações (forças de interdependência e cooperação contra as forças de concorrência) o terreno mais concreto da luta revolucionária. Não à toa o manifesto termina com uma convocação ao encontro – uni-vos em volta de uma fogueira, uni-vos com seus corpos, danças; com a alegria de uma teoria-celebração! Marx queria compreender o capitalismo em sua escala global, geopolítica, mas ao mesmo tempo estava interessado no mundo da vida, em como as pessoas se relacionam, nos modos pelos quais uma associação pode se fazer para lutar contra um inimigo comum, mas também para criar outras possibilidades.

5. Com que agendas e movimentos sociais o pensamento de Marx dialoga?  
Marx devorado nos convoca a um deslocamento imprescindível para pensarmos (e fazermos!) uma classe da diferença. Uma classe que se faz não pela unidade de uma identidade apenas (branca, operária, masculina, etc.), mas que é capaz de fazer operar (e aí sempre operária!) o princípio da diferença para habitarmos os muitos mundos em comum. Levar em conta as diferentes marcas que atravessam nossos diferentes corpos; pensar uma classe preta, trans, mulher, uma classe das florestas, anti-prisional, todos os movimentos que questionam e desobedecem pelo comum(nismo) os arranjos atuais capitalistas; uma luta que é a insistência no encontro – no verdadeiro encontro! – que pode sempre deslocar, colocar em risco nossas bandeiras e os lugares confortáveis das vanguardas e direções partidárias. Marx está aonde existe ainda a insistência na vida, a liberdade e a alegria da luta.

Para se inscrever no curso, acesse: www.centrodeformacao.acaoeducativa.org.br

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