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A expressividade das tintas de André Firmiano

O Artista do mês de Junho da Ação Educativa é o pintor e arte-educador André Firmiano.  Fã de quadrinhos, André desenvolveu uma linguagem capaz de condensar fios narrativos, assuntos e mensagens em suas telas a partir da sua frutífera relação de experimentações. E em um mundo de páginas incertas, conquistou um reconhecimento tão improvável quanto merecido ao utilizar na internet para superar os limites profissionais que a vida costuma oferecer aos jovens negros da periferia da Zona Norte da região metropolitana de São Paulo. 

Ao confiar no contato intrínseco entre sua personalidade e as artes, encontrou olhos apostadores noutros continentes que o ajudaram a mostrar por aqui o valor de seu poder criativo. Uma habilidade que surgiu cedo em sua vida, sem perguntar se ele estava preparado, justamente por se alimentar das suas  dúvidas, suas potências e da energia que divide nas trocas que a arte educação tem lhe proporcionado. Nas linhas a seguir, André compartilha sua trajetória, convicções, vitórias e aflições com a assertividade de quem não quer afirmar novas certezas para definir o futuro, mas para participar dele dando forma a novas angústias por tanto tempo ignoradas.

Autoafirmação

Mesmo entre as pessoas que conhecem pessoalmente André Firmiano, há quem insista em se referir ao seu sobrenome como Firminiano. “Eu nem imagino o motivo… é até mais difícil falar ‘Firminiano’ que falar meu sobrenome certo, mas é daqueles karmas na vida que a gente tem que aguentar”, questiona-se o artista. Não deve ser mesmo fácil, já que até a Secretaria de Segurança Pública, responsável por  produzir R.G.s , tem seu nome em alguns registros grafados equivocadamente, dessa vez como Firmino.

Talvez por isso, autoafirmar-se é uma questão especialmente relevante para André. “Eu sempre fui uma criança bastante introspectiva, tímida, tive uma criação meio reprimida, talvez porque a minha família viveu muitos traumas, minha mãe perdeu três irmãos, todos muito novos, então quando criança e adolescente, eu descobri no desenho uma forma de me comunicar”, recorda.

André reforça que a aptidão artística precoce era “a melhor forma com que eu conseguia transmitir minhas ideias. Nem consigo dizer quando comecei, eu desenhava até meus amigos imaginários da infância”, explica. O interesse por desenhos animados e, na pré-adolescência, pela linguagem gráfica dos quadrinhos, foi lapidando seu talento “de forma tão espontânea que eu nunca pensei em fazer outra coisa da minha vida”.

Dos quadrinhos às telas

A dedicação foi tornando-se mais séria à medida que André amadurecia. Na escola, desenhar personagens da Disney garantia os lanches do intervalo. Já adolescente, o gosto por skates lhe rendeu alguns freelas para marcas do ramo. Em 2003, quando conheceu a pintura, André não tinha sequer a pretensão de viver como artista, “nem sabia que esse caminho era uma possibilidade, estava completamente cru”, confessa. 

Mas o roteiro que hoje parece tão lógico não foi uma linha reta. O sucesso da irmã programadora parecia indicar um caminho diferente dos planos de André, que chegou a acompanhá-la como web-designer em uma agência assim que concluiu o colegial técnico em publicidade e propaganda. “Era um inferno, eu consegui o emprego porque sabia desenhar, não sabia nada de informática, e logo saí para me dedicar à faculdade. Consegui uma bolsa pelo Prouni, mas a casa caiu quando meus pais souberam que escolhi fazer Artes Visuais”, revive.

“Meu pai achava que as artes eram um hobby e insistia para eu acompanhar minha irmã, era bem difícil me afirmar como artista”, relata André, que viu esta situação mudar apenas no final de 2006, quando um montou um blog com seus trabalhos iniciais. “Pro meu espanto, começaram a chegar respostas sobre as pinturas, muitas vinham de fora, perguntando sobre formatos e preços. Mas eram desenhos feitos com materiais de baixa qualidade, eu nem tinha como vendê-los”. 

Afirmar-se artista

O assédio repentino assustou André, que precisou contar com a orientação de um professor da faculdade para saber quais tintas comprar e saber como colocar as contas do mês no preço da sua arte. “Fui construindo minha carreira de artista batendo cabeça e me virando com o que aparecia, eu fui me adaptando”, relembra. 

O blog, que levava o nome do autor, recebeu um grande impulso logo no seu início ao ser divulgado pela revista californiana Juxtapoz, aumentando significativamente a demanda pelo trabalho de André. “Foi uma oportunidade, mas eu não tinha tantos trabalhos concluídos, então tive que correr muito para dar conta”. O blog não está mais no ar, mas André mantém bastante atividade nas redes Flickr, Tumblr, Pinterest, e Instagram.

Esses contatos foram fundamentais para mudar a visão da família sobre sua profissão. Uma galeria também da Califórnia montou uma exposição sobre imigração e incluiu o trabalho do então novato André Firmiano entre grandes nomes do Street Art.Todos os trabalhos apresentados foram vendidos, sucesso que se repetiu numa segunda edição e, em 2007, André pôde acompanhar sua terceira exposição, desta vez presencialmente. “Foi muito louco, porque eu nunca tinha exposto nem no Brasil”, revela André, admitindo um choque cultural com a experiência: “Eu mal tinha saído nem do meu estado, e quando cheguei lá, tinha um mercado de arte me esperando, minha cabeça explodiu! Era uma realidade muito diferente”.  

Em 2008, uma nova surpresa deu respostas finais aos questionamentos sobre a carreira de André. Um grupo de colecionadores de arte londrino, Urban Angels, adquiriu de uma vez só onze de seus trabalhos para uma exposição de Street Art. “Rolava uma supervalorização dos artistas brasileiros do streetart. Foi uma época em que Os Gêmeos estavam estourando no mundo e grupos estrangeiros estavam investindo forte no Brasil”, pondera, como se ainda não acreditasse no fato.

Educação como inspiração

Resumida aos momentos de sucesso, a narrativa pode levar a conclusões afobadas. A sua bolsa na universidade era parcial, e André precisou, assim como muitos outros artistas periféricos, dar conta de uma rotina que incluía o trabalho para custear as mensalidades, as exigentes entregas das disciplinas e as demandas artísticas que iam surgindo. “Só no quarto ano que eu consegui me organizar adequadamente”, pontua o pintor, que além da agência com a irmã, também trabalhou em uma gráfica e, depois, com freelas de ilustração.

“O artista precisa se desdobrar. Você não acorda de manhã, bate o ponto e fala ‘vou pintar meu quadro’. Muitas vezes não acontece, a inspiração não vem”, alerta André, detalhando que foi preciso aprender muito, vender ilustrações, pensar novos formatos e se virar em outras profissões para poder viver, enfim, do próprio conceito. “Com quase 20 anos de carreira, acho que agora eu tô chegando mais perto disso”, celebra. 

E foi neste entra e sai de trabalhos que a vida proporcionou um novo encontro com a arte na vida de André. “Eu tinha uns 23 anos e estava sem emprego, tinha saído da gráfica e estava meio desesperado com as contas da faculdade. Bati na porta de um espaço social perguntando por emprego, e foi assim, muito por acaso, que virei arte-educador. Quando eu dei por mim, estava perdido, rodeado por um monte de crianças,” brinca o pintor, que foi pegando gosto pela profissão com a prática, atuando em projetos culturais com prefeituras, estados e com organizações como a Ação Educativa, onde trabalhou por anos. 

Tendo visitado tanto os bairros centrais quanto lugares onde sequer havia asfalto ou água encanada, André pode perceber na prática o quanto a bagagem cultural das crianças reflete o lugar em que vivem: “Infelizmente, a arte é vista como um passatempo no Brasil, em especial na vida das crianças, mas é uma forma de expressão importante para elas se autoafirmarem”, adverte.

Nestes projetos, as principais preocupações de André são fazer as crianças e adolescentes perceberem o potencial criativo delas e quebrarem o paradigma da beleza, superando a busca obsessiva pela técnica mais realista. “As crianças têm um caminho artístico aberto, são muito expressivas. Mas ao decorrer da vida elas vão sendo podadas, seja por deficiências na escola ou por censura dos pais, e desistem de vez  quando chegam à adolescência por acharem tudo que fazem ruim.”


O privilégio do devaneio

Esse bloqueio, considera o arte-educador, se deve à busca por uma concepção de belo fundada com valores eurocêntricos hegemônicos, e a partir de técnicas que são meros artifícios. “Minhas referências não são artistas que buscam a beleza estética, mas os mais expressivos. Claro que a gente adquire uma bagagem para colocar a cor e as formas certas e criar composições harmoniosas, mas não prezo muito para beleza. Se só quisermos agradar, vai ser muito fácil. Ser expressivo é muito mais complexo que isso”.

André busca algo genuíno quando fala de expressividade, algo tão íntimo que se pode ler quase que à revelia do autor. “As pessoas sempre falam que as figuras nos meus desenhos se parecem comigo, embora eu nunca tenha pensado nisso como uma linguagem. Eu creio que as pessoas sempre se representam quando estão criando alguma coisa, colocam pra fora aquilo que elas enxergam — ou querem enxergar — em si mesmas”, elabora. 

Percebendo este fenômeno em suas próprias obras, André tenta compreendê-lo: “Quando a gente pega os retratos do Brasil, eles sempre foram feitos por brancos, o negro nunca teve a chance de contar a sua própria história, há uma lacuna. Claro que houve artistas negros anteriores, eu sigo um caminho que já foi traçado, mas quando eu, um homem afrodescendente, me represento ou abordo temas relevantes para minha história, acabo ocupando esse espaço também, por mais que eu não tivesse a intenção de seguir pelo caminho da representação”.

Para André essa é uma consequência direta da falta de representatividade que observa no campo artístico. “Na história da arte branca, o artista pode falar do ar e do vento porque a história dele já foi representada. Nas expressões artísticas negras, eu vejo muita figuração, talvez porque ainda temos muita história a ser contada”, reitera.

E nos elementos de sua própria história André indica elementos que compõem a linguagem que vem construindo nas últimas duas décadas: “Se eu convivesse com pessoas de outra classe, em outros lugares, talvez minha arte fosse diferente e não buscasse tanto uma função social para o que eu produzo. Mas eu quero que as pessoas batam os olhos e não vejam beleza, mas uma preocupação existencial, abordando questões políticas que não estão na superfície”, deseja.

 Pra que serve um quadro?

 Tendo aprendido a desenhar lendo os quadrinhos de heróis e depois tendo contato com coisas mais densas, como o Watchmen, do Alan Moore, André começou a se interessar por arte abstrata. “Não sou muito entusiasta da arte figurativa, embora minha produção seja predominantemente assim. Se pudesse, minha casa seria cheia de obras abstratas”, revela. 

O interesse pela abstração não se manifesta apenas na descontinuidade das formas, mas também na ideia de temporalidade das obras que admira. Para André, a profusão de elementos nas páginas de quadrinhos mais experimentais contestam a noção de cronologia. “Tudo se amontoa numa coisa só, como se não houvesse um espaço-tempo definido. A minha linguagem é criada um pouco nessa lógica. Há começo, meio e fim, mas não dá pra deixar um roteiro todo pronto, também, é preciso deixar uma fagulha pra despertar outras coisas em quem observa”, descreve o pintor.

A abstração permeia inclusive a concepção de arte que motiva André. “Cara, a arte não tem limite. Um quadro não tem uma função prática, é uma coisa subjetiva. Ele até fisga uma pessoa a partir das cores e sentidos, você se sente próximo de uma conhecimento que de alguma forma te alimenta, mas essa relação não é direta, e subjetiva. É pelas tangentes que a coisa chega”. 

“A arte tem que ser expressiva, oferecer algo para que outra pessoa possa se identificar de alguma forma. A sua função como artista é despertar algum sentimento, mesmo que seja diferente daquele que você propôs”, define André. 

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