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Célio Turino aborda cidadania, protagonismo, autonomia e cultura em formação realizada com jovens monitores

O gestor procurou alinhar reflexões teóricas com a prática dos jovens do CCJ

Como parte da formação sobre a dimensão cidadã da cultura, os jovens monitores do Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso (CCJ) tiveram um encontro com o historiador, escritor e gestor de políticas públicas Célio Turino, que atuou como gestor na Secretaria da Cidadania Cultural do Ministério da Cultura (MinC) entre 2004 e 2010. Nesse período, ele foi o responsável pelo Programa Cultura Viva, política do MinC que viabilizou a criação de mais de 2.000 Pontos de Cultura espalhados em municípios brasileiros.

Célio iniciou sua formação a partir de uma explanação teórica sobre os processos de opressão que podem ocorrer no campo da cultura, que hierarquizam povos e segmentos sociais. Para ilustrar, ele exemplificou através do conto “O homem que sabia javanês”, de Lima Barreto, em que o protagonista se faz passar por um professor da língua da distante ilha de Java, obtendo sucesso e reconhecimento. No entanto, o homem que sabia javanês nunca tinha estudado tal língua.

Mas a cultura também pode ser arena de processos de libertação: “Isso acontece quando ela é acompanhada do fortalecimento da autonomia e do protagonismo das pessoas. Para que elas descubram de fato a sua potência, para que elas percebam sua força, sua capacidade de agir e transformar. A potência é uma característica inerente a todo ser vivo”.

 

Potência, protagonismo e autonomia

Célio explicou que a potência é a capacidade que temos, jamais dada por alguém, de, ao representar nossos sonhos, transformar uma ideia em uma realização. Sobre a autonomia, o historiador afirmou que ela nunca pode ser absoluta, já que ninguém tem autonomia plena e todos dependemos uns dos outros. “Da junção da autonomia com o protagonismo, no campo da cultura cidadã, é que vamos descobrindo nossa potência”.

Segundo Célio, a história humana é baseada na opressão da potência. Entretanto, iniciativas como as manifestações de rua atuais, ou as históricas lutas por direitos de movimentos sociais, demonstram a possibilidade de quebra da ideia de impotência.. A descoberta da potência a partir do ativismo, para Célio, tem relação muito próxima com a cultura e as dimensões de valor. Dessa forma, é necessário se perceber no outro, por mais diferentes que sejamos. “A cultura que liberta é aquela que promove o encontro”, afirmou.

No entanto, não há como estabelecer o diálogo e o encontro, se não se discute e se entende a identidade. “Identidade é saber quem eu sou a partir de mim mesmo […] Se a pessoa não sabe quem ela é, jamais vai conseguir compreender o outro, porque ela é um absoluto perdido”.

 

Mediadores culturais

Para o gestor, a cultura possui um ‘pé na tradição’, mas busca sempre a inovação, e isso deve ser parte do papel desempenhado por mediadores culturais, como os Jovens Monitores do Centro Cultural da Juventude.

Numa conversa sobre o cotidiano dos jovens, em que foram abordados os eixos do CCJ, Célio estabeleceu relações entre sua exposição conceitual e a prática cotidiana, alertando que o protagonismo e os laços para fortalecer a autonomia são essenciais no trabalho de um centro cultural.

Ele enfatizou ainda que a interação entre os jovens poderá produzir uma inteligência coletiva, a fim de contribuir com seus papéis como gestores culturais. Para ele, é fundamental, na era de pensamentos entrecortados, produzir narrativas, entendendo seu ponto de início e onde se quer chegar. Esse é um dos grandes desafios da atualidade, essenciais para a emancipação humana. “Temos que ser soberanos do nosso destino”, explicou.

Os jovens quiseram saber mais de sua experiência como gestor cultural e pontuaram questões sobre a dimensão cidadã da cultura. Para o escritor, em gestão pública é preciso acreditar mais nos companheiros de trabalho, agregando e monitorando elementos que permitam um processo de desenvolvimento.  Como na política dos Pontos de Cultura, a ideia é descentralizar os espaços culturais, mas numa lógica diferente, investindo em e potencializando a autonomia e o protagonismo de cada indivíduo e coletivo.

Leia aqui o conto de Lima Barreto, “O homem que sabia javanês”.

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