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Cidadania cultural e juventude são temas de formação com os Jovens Monitores do CCJ

“O que é cidadania?”. A pergunta foi uma das primeiras da formação ministrada por Gil Marçal, diretor de cidadania cultural da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, com os Jovens Monitores do Centro Cultural da Juventude (CCJ) na segunda-feira (31/03). Num bate-papo sobre direito à cultura e cidadania cultural, Marçal abordou os conjuntos de direitos e compromissos estabelecidos pelo Estado e pela sociedade, focando na experiência do município de São Paulo, além de refletir sobre cidadania no espaço urbano e em outros territórios geográficos.

Em sua fala, Marçal explicou que cidadania é um conceito, construído a partir de elementos necessários e imprescindíveis à população. “A gente está sempre lutando para ampliar esses direitos e conscientizar sobre esses compromissos”, disse. Dessa forma, a cidadania cultural também se constrói no encontro com o outro, no convívio. “A gente estabelece cultura a partir do nosso diálogo, nas formas como a gente vê o mundo, no encontro e no conflito de ideias”.

Para ele, a sociedade funciona com ideias colocadas, que estão sempre dialogando ou conflitando entre si. Isso é cultura. São essas ideias, por exemplo, que têm grande poder de mobilização. “A gente não se alimenta só de comida. A gente se alimenta de ideias, de reflexões, de exposição, de introspecção”.

É nessa ampla discussão, do poder das ideias, que Marçal aponta a responsabilidade de Jovens Monitores atuarem num centro cultural como o CCJ. “Qual é o papel de vocês nesse espaço?”, questiona.

 

Trabalho com a Juventude

O gestor também refletiu sobre questões importantes para quem trabalha com a juventude. O jovem, quando se torna mais autônomo, vai buscar outras convivências e espaços, para além daquele familiar. “Esse discurso de ‘vamos tirar o jovem da rua’ é uma desgraça. Vamos por o jovem na rua”, opina. Segundo Marçal, é na rua que o jovem se constitui, se experimenta.

Para Marçal, o jovem necessita do direito de estar, elemento fundamental para trabalhar com esse público. “Mais do que as atividades que o Centro Cultural da Juventude pode oferecer, o direito do jovem de estar lá, em si, é com certeza a maior oferta que aquele espaço pode trazer”, afirma.

A proposta de estar em outro lugar, que não é o espaço familiar ou a escola, é fundamental para um lugar como o CCJ exercer sua função, apostando na experimentação, na vivência e na captação sobre o que essa juventude está pensando. Além do direito de estar, o gestor apontou outro elemento essencial: o conceito de não-diretividade, permitindo que os jovens troquem ideias que podem resultar em ações. É necessário criar uma contramão e certas vezes não intervir gera um melhor resultado.

 

Políticas de Cultura em São Paulo

Mário de Andrade foi o responsável pela criação do que se chama hoje de Secretaria Municipal de Cultura, na época chamada de Departamento de Cultura. “É uma época em que se começa a pensar a ideia de equipamento. Acesso a equipamentos, a prédios… A ideia da cultura está voltada para o espaço físico”, conta Gil. Foi nessa época em que foi instituída uma política forte de construção de bibliotecas pela cidade, por exemplo.

Já em tempos atuais, surgiram as leis de incentivo fiscal nos âmbitos federal, estadual e municipal, fortalecendo uma perspectiva da meritocracia e do currículo. Para Marçal, é necessário fazer outros tipos de política, diretas ou indiretas, que fujam dos incentivos fiscais baseados nessas perspectivas.

Marçal sugere que quando o mercado financia arte e cultura, através de leis de incentivo, faz isso porque tem um interesse. Quando esse mecanismo passa por dentro do Estado, torna-se um processo de perversão. “Porque o Estado tem que financiar aquilo que o mercado não financia. Se o mercado financia, não precisa do Estado”, opina.

São dois os eixos fundamentais identificados por Gil, no debate contemporâneo sobre direitos culturais. O primeiro é o acesso aos produtos culturais. O outro é a experimentação, que ainda é uma ideia muito recente. “Todo mundo tem direito à cultura. E como fazemos para aqueles que não têm o melhor currículo, a melhor proposta, poderem participar e ter seu direito à cultura?”, questiona Marçal.

 

Valorização de Iniciativas Culturais

Gil Marçal, ainda na formação, compartilhou o histórico do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais – VAI, que pretende ser uma política pública para a diversidade cultural. Na visão de Marçal, políticas como o VAI nascem a partir da lógica do direito à cultura, apostando na diversidade e na proposição. A ideia é que os coletivos criem seus projetos a partir de suas realidades e de suas demandas, no que julgam como importante para desenvolvê-lo.

Há uma preocupação de fomentar e valorizar linguagens que aparecem menos, assim como regiões da cidade com menor oferta de equipamentos culturais. “Isso faz parte da política para incentivar e fortalecer a cultura naquele território ou naquela linguagem”.

Nessa perspectiva, oficinas de elaboração de projetos são realizadas em regiões e locais que menos apresentam proponentes nos processos de seleção do edital, tendo em vista instrumentalizar ativistas culturais destas localidades a participarem do VAI. Na zona norte, o CCJ foi estrutural nesse fortalecimento. “Todos esses programas, por trás, tem uma filosofia de descentralidade”, finalizou.

 

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