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Como a pintura revela Robinho Santana, o bom filho do Jardim Ruyce

O grafiteiro e artista plástico é o artista do mês de março da Ação Educativa e fala sobre identidade, acesso à arte, saúde mental e como descobriu que poderia ser quem sempre foi

Depois de uma espera de horas incontáveis, bate o horário de visitas do hospital e Robson pode enfim encontrar a mãe, Josefa Santana, recém saída de uma cirurgia bastante delicada, não só por sua complexidade, mas também pela idade avançada da paciente. Ao entrar no quarto, ele olha para a mãe ainda com os acessos e curativos do pós-operatório, mas o choque não supera o alívio de reencontrá-la bem. Preta, como é conhecida, olha de volta para Robson, ansioso, e com a voz ainda debilitada pelos procedimentos médicos repete uma pergunta familiar:

“- Já comeu, menino?”

No início deste ano, quando se viu diante da maior empena do Brasil a receber uma pintura artística, em Belo Horizonte (MG), Robinho não teve dúvidas para definir o tema com o qual a cobriria: “Mano, você consegue imaginar a força de uma pessoa que está numa cama de hospital e mesmo assim consegue estar mais preocupada com você do que com ela mesma? Eu não conheço nada maior, nada mais forte que isso”, afirma, tão grato e incrédulo quanto no momento que acabara de narrar.

Esse reencontro aconteceu pouco tempo depois de sua primeira apresentação como artista plástico, em 2017, no ‘predinho’, como é carinhosamente chamada a sede da Ação Educativa. Até aquele momento, não havia galerias para que expusesse suas telas. O próprio Robinho relutava em assumir a profissão que viria abraçar: “Eu fazia arte mas não me entendia como artista. A gente sempre tem aquela insegurança, acha que só a gente mesmo gosta do trabalho que tá apresentando. O apoio das amigas Raquel Luanda e Juliane Cintra, que me proporcionaram essa oportunidade e me fizeram ter coragem de fazer o que eu acredito, tem uma importância grande na minha vida”. 

Robinho ficou surpreso com a presença do público na sua estreia. “Estar na Ação Educativa, num lugar que tem a ver com a minha arte e com pessoas que se veem e se entendem nela foi definitivo pra minha carreira”, reconhece. Entre as pessoas que lotaram sua exposição, estava sua mãe, às vésperas da operação que lhes causaria tanta apreensão. Sua voz treme quando se recorda: “Esse dia foi pesado! Eu fecho o olho e vejo minha mãe ali, sentada olhando pra um quadro, tentando entender, vendo a parada toda se concretizando”.

Um artísta plástico preto e periférico

Por ‘parada’, Robinho se refere a uma carreira improvável para um menino de Diadema, que fazia seus pais temerem pela carreira escolhida pelo filho, que abandonava alguma segurança do trabalho com publicidade para se dedicar à arte. A profissão é incomum onde mora, no Jardim Ruyce, em Diadema, e não estava nas expectativas de seu pai, o político e líder sindical Vicentinho da Silva, e sua mãe, conselheira tutelar. “Aceitar a decisão de ser artista foi difícil até pra mim, imagina pra eles. Mas, depois de aparecer na TV Globo, ficou tudo mais fácil”, brinca o artista plástico. 

A preocupação de seus pais, contudo, não era desmotivada. A criminalização da expressão artística negra e periférica é uma ameaça que não demoraria a se concretizar. Pela obra “Deus é Mãe”, que cobre os quase 2000 m² da empena mineira com a inspiração de Dona Preta, Robinho e as idealizadoras do Circuito Urbano de Arte (Cura) receberam um processo por crime ambiental. A queixa foi motivada pela insatisfação dos moradores com a moldura da obra, uma composição estética com a caligrafia do pixo realizada por grupos belorizontinos. 

Mas a carreira também tem seus momentos positivos. A notificação policial, arquivada no início de março pelo Ministério Público, foi tão inesperada quanto o convite da publicação “O, the Oprah Magazine”, recebido há pouco mais de uma semana. Bom demais pra ser verdade, Robinho achou que se tratava de um golpe até cair a ficha que ele, “um artista lá do Ruyce, tava sendo chamado para pintar a capa da revista da Oprah, uma das mulheres mais influentes do mundo”.

A edição de março da revista traz o retrato de Breonna Taylor, uma técnica de emergência médica cujo assassinato pela política da Louisiana motivou uma série de protestos de grupos como o Black Lives Matter. Vendo seu trabalho reproduzido para os 20 milhões de seguidores da apresentadora, Robinho celebra a repercussão: “O que me deixa mais feliz é que não é só uma questão estética. Não tá lá não porque fiz um desenho bonito, mas porque tem uma luta, uma história por trás, faz mais sentido pra mim”, pontua.


Representatividade

Se conseguir reconhecer-se como artista foi um processo desafiador, Robinho pode se descobrir como preto desde muito novo, graças aos pais militantes. “A minha construção sempre foi muito sólida, muito fundada. Eu sempre soube quem eu sou. Eu aprendi que era um negro de pele clara em casa, de uma forma positiva, e não com a polícia, por meio da violência –  apesar de ser parado nas ruas desde os 11 anos de idade”, pontua. 

Segurando as mãos dos pais, Robinho participou da Caminhada Zumbi pela Vida, em 1995, que partiu da Praça da Sé à Aparecida do Norte, onde foi encenada a primeira montagem da “Missa dos Quilombos” em uma igreja: “Eu era muito novo, mas pude caminhar com eles por algumas horas em alguns dias e tive ali uma introdução à cultura preta”. 

A experiência foi formadora para o artista, que compreendeu ali que era preciso dar diversidade à forma como as pessoas negras eram retratadas: “A missão do meu trabalho não é só arte, é muito mais que tinta e pintura, é oferecer essa outra construção da negritude para, fazer com que as pessoas negras se enxerguem não só nas imagens sobre as pessoas negras na escravidão. Eu quero falar de coisas boas também, colocar a pessoa negra de forma plural como nós somos, com todas as emoções que temos e que precisam ser discutidas”, manifesta.

É nos muros e empenas que Robinho percebe mais concretamente a construção dessa identidade positiva acontecendo: “Acho que todas as pessoas que trabalham com Graffiti vivem essas interações, as pessoas param pra olhar, perguntam o que é. Quando a gente pinta na rua e está em contato com o público, ouve coisas como ‘Pô, cê tá me pintando’, ‘tá pintando a minha mãe’, e vê as pessoas se vendo nas obras, é gratificante”.

Quando deixou de morar com os pais, Robinho passou a morar no centro de São Paulo, no bairro do Bixiga, onde também pode presenciar esse processo. “O pessoal fala que é um bairro italiano, mas é um bairro preto com uma imigração nordestina gigantesca. Eu pintei pessoas carregando suas coisas na cabeça, e o pessoal se identifica. Quando eu vejo o pessoal tirando foto na frente das telas, como acontecia na Ação Educativa, como acontece num mural que eu fiz aqui com um pai negro carregando a filha pelo braço, eu vejo uma mudança acontecendo. Eu não sei se vai mudar a vida de outras pessoas, mas já mudou a minha”, reconhece.

Contudo, o pintor deixa nítido em seu trabalho que pensar numa abordagem plural não significa desconsiderar o racismo, deixar de enfrentar as condições estruturalmente adversas que as pessoas negras enfrentam. “Em Belo Horizonte, eu pintei uma obra que tem uma mãe negra segurando uma criança. Você pode não entender que ali tem racismo diretamente, mas tem. Dificilmente pessoas negras são pintadas em coisas grandiosas. Quando eu faço duas pessoas pretas se beijando num espaço público, o racismo está ali. Eu falo das pessoas que são a maioria da população brasileira. Quando me perguntam por quê eu só pinto pessoas pretas, o racismo está ali. Não perguntam isso para quem só pinta pessoas brancas. E esse é o meu propósito, eu só pinto pessoas pretas pra combater o racismo. Só fazer já é o combate, mesmo que eu não fale dele diretamente”, reflete. 

Saúde mental

Ampliar as temáticas de representação das pessoas negras abre espaço para discutir saúde mental, um tema presente nas obras de Robinho, mas pouco acessível à população periférica. “Tem uma par de irmãos na periferia com depressão e nem sabem do que podem estar sofrendo, tá ligado? O cara foi construído como machão, o negrão da quebrada, e não imagina que tem um problema psicológico. Minha arte tem que servir pra abrir os olhos pra isso também.”

Mesmo para Robinho, o acesso ao tema chegou de forma tardia. “Eu só fui saber que eu poderia procurar um psicólogo quando eu tinha 30 anos de idade, por recomendação da Raquel. Quando comecei, eu precisava de tratamento urgente, e a terapia me ajudou a encarar as coisas que eu tinha medo de viver, me ajudou a continuar vivo e a enfrentar os meus problemas”, destaca. 

Hoje, o artista plástico indica o tratamento a todos os amigos que podem ter essa possibilidade, e percebe a influência da terapia e de dedicar mais atenção para seu autocuidado nas suas obras. “Se analisá-las cronologicamente, eu passei a falar sobre representatividade negra de uma forma mais profunda e conceitual”. 

Para além da questão da linguagem, Robinho também reconhece o valor da terapia para administrar sua carreira e manter a cabeça equilibrada nos momentos em que o dinheiro não flui muito bem. “É preciso ter uma resistência psicológica para ser artista no Brasil, especialmente pra quem nunca soube que poderia viver disso”. 

Acesso ao consumo de arte

A terapia também o ajuda a lidar com uma questão estrutural, que não pode ser solucionada individualmente, que é o restrito acesso ao consumo de arte, ao qual o próprio Robinho por muito tempo esteve excluído. A primeira vez que entrou no principal museu de São Paulo, o MASP, foi há dois anos. “Pra mim é tudo novo, eu não sei me portar nos espaços da arte, nunca frequentei esse rolê de galerias, não sei nem por quanto vendem o meu trabalho. Vou aprendendo aos poucos”, comenta.  

Aos poucos, Robinho vai construindo sua carreira como artista independente, “essa forma que enxergo pra fazer a minha caminhada. Dificilmente eu vou fazer o que eu penso e falar o que eu quero em uma galeria. Se eu tiver que fazer ‘tantos’ quadros por mês, volta a ser como o trabalho de agência de publicidade pra mim”. Outra questão é o acesso elitizado e seletivo às obras de artistas negros, que contraria o propósito de suas produções “fico imaginando uma pessoa branca e rica olhando meu quadro e comprando ele porque achou exótico” — a propósito, o tema também foi objeto de crítica da artista Lya Nazura, na Descolonizarte.  

É difícil para um artista negro preocupado com as questões de raça e de classe compreender que pessoas privilegiadas consigam comprar suas obras, e que pessoas pretas e pobres dificilmente terão seu trabalho original. “Sem essa formação política e sem terapia, é embaçado lidar com o dilema de sobreviver, e querer que as pessoas pretas tenham acesso”, lamenta.

Contudo, Robinho evita uma visão generalista sobre as galerias, “não é o meu momento agora, mas quem sabe um dia? A gente também precisa ocupar esses espaços. Eu topei participar do programa da Fátima Bernardes por isso também. Não é um público que pensa como a gente, mas é uma oportunidade de furar a nossa bolha da militância, de chegar pra todo mundo”.

Infelizmente, contudo, além da exclusão financeira e social, há ainda uma barreira cultural. “são pouquíssimos casos de gente como a gente, trabalhadora, que junta grana, parcela e compra um trabalho original, se torna colecionadora. Eu presenciei isso, eu vivi, chega a arrepiar”, lembra-se sorridente. 

Entre as soluções que encontrou para poder se manter e ainda assim celebrar que amigos do Jardim Ruyce ou de qualquer outra quebrada possuam seus trabalhos foi fazer impressões mais em conta, além das telas que produz. Com orgulho, Robinho conta que “sem brincadeira, acho que vendi mil prints de 30 contos, e uns 90% das pessoas que compraram são pretas e periféricas, isso é muito significativo pra mim”. 

O esforço por aproximar sua obra das pessoas com quem se identifica traz pra Robinho um retorno diferente do dinheiro, que talvez não encontrasse noutros caminhos: “Hoje, quando recebo uma mensagem de alguém que estava com depressão e voltou a desenhar por conta do meu trabalho, isso me cura também, eu fico agradecido. Meu trabalho nunca foi só desenhar, mas não achei que poderia contribuir pra luta de alguém assim”. 

Acompanhe o trabalho de Robinho Santana:
Facebook: https://www.facebook.com/robinhosantana01
Instagram: @robinho_santana

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