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Culturas populares tradicionais exigem produção cultural com um olhar especial

Jovens monitores culturais conheceram os espaços da Associação Cultural Cachuera! e tiveram oportunidade de se aprofundar nas manifestações tradicionais afro-brasileiras

“As pessoas que fazem produção cultural de comunidades, de cultura popular, têm necessariamente que frequentar as festas. Se não, você nunca vai saber, por exemplo, como é a economia de uma”, explicou Paulo Dias, durante a formação teórica dos jovens monitores culturais do CCJ – Centro Cultural da Juventude na Associação Cultural Cachuera!.

A instituição tem como objetivo contribuir para a valorização da cultura popular tradicional brasileira e de suas comunidades produtoras. Durante a visita, os jovens puderam conhecer a história da organização, frequentar o espaço e o acervo, manusear instrumentos ligados à cultura popular e, ao final, participar de uma oficina de Jongo com a equipe do Cachuera!.

Paulo Dias é pianista clássico e teve no Candomblé sua porta de entrada para o universo simbólico das tradições afro-brasileiras. Por anos realizou pesquisas sozinho e com a cooperação de parceiros, que culminaram na consolidação da Associação Cultural Cachueira! como instituição no final dos anos 1980. A escassez de documentação sobre o tema é um dos motivos pelos quais o Cachuera! persegue manifestações populares, concentrando-se no universo do Congo e dos Batuques, como o Jongo e o Batuque de Umbigada. “São vozes silenciosas. Quando você vai nas comunidades, percebe que aquilo está vivo, pulsando. São comunidades que reúnem muita gente e com pouquíssimo dinheiro fazem festas maravilhosas. Uma das coisas principais que se aprende com é como se recebe as pessoas. Eles recebem a gente muito bem e o pouco que têm, eles dividem”, conta.

Para Paulo, as tradições populares afro-brasileiras se configuram igualmente como a música clássica: são profundas, cheias de códigos específicos, de regras, e detêm uma estética especial, cuja chave para compreensão é a coletividade. Diversas, agregam ritualidades afro-brasileiras bem próximas às africanas, como o Candomblé, assim como aquelas cuja influência de outras matrizes, como a ocidental-católica, a exemplo da Congada.

Em relação com muitas comunidades, mediante respeito, participação e parceria, a Associação realiza pesquisas, registros documentais, reflexões e ações de divulgação das manifestações culturais e os produtos destas. “A pesquisa também se inscreve no corpo. Então a vivência, tocar, dançar, conviver com os mestres, além de fazer essa documentação em áudio e vídeo, é parte essencial do trabalho”, conta Renata Celani, responsável pela coordenação de Comunicação da organização.

A equipe frequenta as comunidades e efetua os registros sempre em contato com os mestres dos lugares. Autorização de registro e direitos autorais são pontos de atenção para os integrantes do Cachueira!, assim como o fornecimento de cópias do material final elaborado para a comunidade estudada.

Para encontrar os percursos que levam os pesquisadores até as comunidades, integrantes do Cachueira! lançam mão dos meios formais de pesquisa, e sobretudo, dos caminhos da informalidade. “Percebemos essa questão não oficial, de não estar entranhado na oficialidade. As tradições populares têm outro jeito de você saber o que está rolando, quando e o que vai rolar. Muitas vezes, quando sabíamos de uma comunidade próxima a uma cidade e não achávamos registro, buscávamos no mercado municipal ou nos botecos antigos pessoas que nos dessem referência delas.”, explica Paulo.

O acervo de referência sobre cultura popular, prioritariamente sobre comunidades afrodescendentes do Sudeste brasileiro, é composto atualmente por aproximadamente 1.300 horas de registro áudio-digital, 900 horas em vídeo de mais de 140 localidades percorridas.

Além do acervo, o Cachuera! mantém um catálogo com CDs, documentários e livros sobre a temática, realiza eventos e cursos, abriga um estúdio de gravações em áudio e difunde o acervo através de apresentações e vivências com o Grupo Cachuera!, criado em 1994 e composto por 15 artistas e músicos.

Cenário, contexto e produção cultural

Nos anos 1980,o que se falava de cultura afro-brasileira vinha do Nordeste, como o Maracatu. A cultura afro-brasileira do Sudeste era pouco divulgada e estudada. “Fomos no nosso quintal”, diz Paulo.

Segundo Paulo, com a valorização da world music, música étnica feita por comunidades não inseridas no circuito da música pop, começa a se usar músicas de raiz no mundo inteiro nas perspectivas comerciais a partir dos anos 90.

Nessa mesma época, a equipe do Cachuera! começa a buscar patrocínios para a realização de produtos, tendo sempre um grande cuidado com as comunidades envolvidas e trazendo questões como contrapartida e direitos autorais. A grande maioria das comunidades optava por receber em discos, porque aquele era o documento que eles tinham do seu fazer cultural, da sua herança.

A Associação relata da dificuldade em utilizar modelos de direitos autorais da cultura de massa na cultura popular brasileira, especialmente pela questão da autoria. Os folcloristas explicam que a autoria é coletiva, porque a música é apropriada por inúmeras pessoas, já que a preocupação com a autoria não é central e a música é criada para ser divulgada entre aquela comunidade. “Essa é uma questão muito difícil de ser tratada por uma legislação que precisa de um autor”, explica Paulo. É preciso reformar a legislação de direitos autorais para que contemplem esses grupos.

Atuando em várias frentes, como a publicação de produtos, produção cultural e de eventos, além de participar de festas em diversas coletividades, a Associação sempre convidou as próprias comunidades a virem à Associação e a outros lugares do Brasil. “A gente fazia meio na raça, aprendendo muito com as comunidades a receber. Porque eles sabem muito bem receber as pessoas”.

“Se eu vou na sua casa, você vem na minha. Isso se chama reciprocidade. Percebemos que atualmente falta para os produtores culturais essa vivência que forma a pessoa, em ir nas comunidades e sentir como eles recebem as pessoas e como se interessam em vir”. Segundo Paulo, no Congado mineiro, existe uma expressão para a reciprocidade: pagar a visita. “Isso é uma coisa muito bonita, porque são redes de sociabilidade”, diz.

Se o grupo é tirado de seu contexto para se apresentar em locais que não fazem parte de sua história é diferente, quase como se aquela tradição fosse qualificada como entretenimento, deslocando uma característica de herança cultural e identitária. Receber as comunidades inclui pensar no transporte, falar com as prefeituras locais no intuito de fortalecer essa identidade, dentre uma série de outros cuidados simples, mas essenciais, que fazem toda a diferença. “Nós, como produtores, temos que sensibilizar os outros profissionais do ramo”. “Quando você coloca essas comunidades num lugar que não é mais o terreiro, as relações mudam. Tem que ter o ônibus, o cachê, porque você está obedecendo outra lógica, a da cultura de massa. Não é mais a cultura tradicional. Você não pode confundir as coisas. Eu vejo os caras descerem do ônibus na calçada e ninguém está lá para recebê-los. A linguagem das comunidades não é essa”.

Para Paulo e para a equipe da Associação, o produtor cultural precisa pensar todas essas questões e sempre ter em conta o ponto de vista das comunidades. “A cultura popular é uma questão de vivência. De você “perder” tempo com as pessoas. Não tem relógio. Você senta e vai tomar um café, ouvir, conversar, comer a comida sem conversar… Você vai estar com as pessoas. É assim que funciona”.

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