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Entre a cruz e a espada no jogo político pela governabilidade

O segundo turno das eleições presidenciais deste ano mostrou uma disputa acirrada entre dois candidatos que acabaram por aglutinar pessoas e partidos em dois blocos: um campo de centro esquerda e outro de centro direita. Tirando a minoria que votou nulo ou branco, já que o número de abstenções não indica quantos efetivamente deixaram de votar por vontade própria, a divisão dos campos se confunde no centro de ambos, ampliando-se para a esquerda e a direita até setores mais radicais. A novidade está na presença mais clara de uma direita que se caracteriza pelo radicalismo de posições mais xenófobas, preconceituosas e elitistas, ausente nos últimos tempos desde a queda da ditadura militar, e que agora tem dado a cara e ocupado espaços públicos. Já a esquerda mais radical, com o acirramento da disputa eleitoral, em grande parte acabou se aliando ao campo centro esquerda no seu voto.

O acirramento da disputa eleitoral capitaneado pelos dois partidos que vêm liderando a cena pública nas últimas eleições presidenciais mostra um crescimento da oposição que vinha se desenhando desde as grandes manifestações de junho de 2013. O PT, que havia saído vitorioso das eleições municipais e caminhava para uma reeleição tranquila no plano federal em 2014, foi surpreendido por aqueles atos e pela queda nas indicações de apoio. Os governos estaduais e municipais dos diversos partidos também, mas o impacto maior recaiu sobre as eleições presidenciais, quase levando a uma vitória da oposição.
Os protestos de 2013 marcaram o fim de um ciclo de namoro entre o PT e a maioria da população? Não é uma pergunta fácil de responder dados os inúmeros fatores postos sobre a mesa. A resposta está nos fracos indicadores econômicos dos últimos meses? Difícil afirmar com certeza, já que os mais importantes, empregos e estabilidade nos salários não demonstram arrefecimento até o momento da eleição e a confiança no futuro se mantinha estável. Seria o aumento da inflação? Não parece que seja tão significativo, apesar de ser importante com os índices mais elevados. Seria o aumento das denúncias de corrupção e a forte participação oposicionista da grande mídia? Também não parece ser um fator explicativo tão importante, afinal, Lula foi reeleito em meio ao chamado mensalão.
Mas se há inclusão social, alta taxa de empregos, aumento no salário mínimo, crescimento de alunos nas universidades e outras melhorias nos setores sociais e econômicos, por que então o crescimento da oposição? A resposta talvez esteja no fato de que a melhoria nas condições concretas da população acaba por colocar na cena pública setores antes excluídos e que hoje exigem mais e melhores direitos sociais, como saúde, educação, transporte, segurança, coisa que os governos Lula e Dilma deixaram de cumprir de maneira efetiva e universal. Talvez porque as violações locais de direitos, como a elevada morte da juventude periférica, principalmente a juventude negra, comece a ganhar visibilidade, assim como a ameaça das populações indígenas e quilombolas, a piora nas condições ambientais, a piora nas condições de vida nas grandes cidades, etc. Tudo isso veio à tona nas manifestações de 2013 sem que houvesse uma resposta efetiva por parte dos poderes públicos.
O novo mandato da presidenta Dilma terá de dar respostas ao “quero mais” em uma conjuntura pior sob o ponto de vista econômico e político, com um congresso mais conservador constituído por 29 partidos, o que a obriga a se lançar no jogo político para construir maioria com consequências imprevisíveis sob o ponto de vista da troca de favores e concessões pontuais. Tudo isso intensificado por um cenário de oposição crescente.
O modelo desenvolvimentista seguido até agora combinou a reprodução dos grandes interesses econômicos com a melhoria da base da sociedade através dos programas de distribuição de renda. Mas não conquistou direitos sociais universais de qualidade para o conjunto da sociedade e, pelo o que as grandes manifestações de 2013 e o recado das urnas mostraram, vem apresentando sinais de esgotamento. A presidente não terá vida fácil e enfrentará pressões para dizer a quem irá atender neste segundo mandato. Entre a cruz e a espada, ela precisará buscar caminhos alternativos para não cair na lógica maniqueísta que dificilmente se sustentará por quatro anos, independente do lado que escolher. Para evitar o jogo político da governabilidade a qualquer custo, pautas como a reforma política, por exemplo, serão fundamentais e, ao que tudo indica, encontrarão uma janela de oportunidade para se concretizar.

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