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“Eu não passo vontade, vou lá e faço”, o desejo de aprender e fazer arte constroem a identidade do “multiartista” Tiely

Nosso artista do mês de outubro, Tiely, conta as origens da multiplicidade de sua expressão artística e a sua relação de longa data com o festival Estéticas das Periferias

Talvez hoje seja difícil imaginar a cena: Você tem alguns poemas escritos no papel e quer publicá-los em alguma rede social ou deixar aquilo salvo no computador para não perder. Só que, para fazer isso, você tem que viajar 28 km do extremo sul da Zona Leste até o único lugar com acesso liberado a um computador com acesso a internet.

Conseguiu visualizar o “trampo” que seria fazer isso? Pois bem, era esse o “rolê” que Tiely fazia para “pôr para fora” os versos que escrevia, usando um computador para publicar em blogs e redes sociais. “Eu acumulava um monte de coisa, escrevia várias paradas, juntava todos aqueles escritos e ia para Ação Educativa, porque lá tinha uns computadores no mezanino que ficavam conectados na internet e era só chegar e usar”.

Alguns dos poemas do recém publicado “Trans Corpo Ético”, livro de poesia erótica, ganharam forma ainda nesse tempo. O livro foi lançado em maio de 2021, pela “Ciclo Contínuo Editorial”.

Um aviso para quem estiver sentindo falta do “Queen”: por um opção artística, “Tiely” não usa mais o “Queen” na divulgação dos seus trabalhos artísticos. A mudança tem haver com uma ideia de “um nome só transmite mais força, não tem nenhuma questão política ou de gênero”, explica.

Multiartista
Se o lado escritor é um de suas facetas com manifestações mais recentes, é impossível relacionar Tiely a uma só linguagem artística. Primeiro homem trans do Hip Hop Nacional, o rol de seus trabalhos é quase infinito. “Eu não passo vontade. Eu tenho uma ideia, um desejo de fazer algo, eu vou lá e meto a cara, tento fazer mesmo, dar o melhor naquilo”, reconhece.

O primeiro contato “mais consciente” com a arte veio como resposta a uma provocação na escola. Como quase todo aluno agitado, Tiely sempre estava fazendo algo, questionando, falando, sempre ativo. Até que uma professora, meio em tom de desafio e meio desabafo, provocou: “Você devia fazer teatro, viu? Você tem muita dúvida, muita pergunta, não para quieto”.

Ele conta que quando ouviu aquilo não deixou barato: “Teatro, professora? Não tem teatro aqui na escola, onde eu vou fazer isso?”. A resposta foi a indicação da oficina Cultura Luiz Gonzaga, no bairro São Miguel Paulista.

“Foi um negócio muito louco ir para a oficina. Foi impressionante o quanto as aulas de teatro fizeram sentido para mim, me encontrei muito naquilo. Mas não fiquei só no teatro, praticamente todas as oficinas que apareciam eu queria fazer, queria conhecer. Ainda bem que essa professora pagou para ver”.

Sua lista de trabalhos e linguagens artísticas é extensa e diversa, passando por Hip Hop, cinema, produção, fotografia, novela – isso para ficar só nos principais. Para Tiely, o que une toda a sua multiplicidade  é o desejo de fazer algo novo, de descobrir algo e fazer aquilo bem feito. “Isso faz muito parte de mim, esse desejo de meter a cara, me proponho a fazer uma parada diferente e me esforço o máximo para dar o meu melhor naquilo”, descreve.

Identidade

Para Tiely, ser o primeiro homem trans do Hip Hop tem uma importância muito mais coletiva do que individual. “Hoje tem aparecido mais gente, as pessoas estão falando e posicionando, mostrando que a figura do homem não é a única que existe no hip hop. Não dá para falar tanto que o preconceito diminuiu, mas tem mais gente na cena, isso é importante para caramba”.

Quando começou no Hip Hop, entre o final dos anos 80 e começo dos 90, a caminhada começou na composição, o passo seguinte foi começar a cantar e depois formar o grupo “Preto Cerebral”. Na época, ainda sem noção da sua própria identidade de gênero, Tiely era visto como mais uma das meninas que se precisam se vestir como como homem para poder fazer parte do movimento.

“As meninas ficavam ‘no veneno’ por serem forçadas a se vestirem assim, já comigo era o contrário. Eu me sentia muito à vontade me vestindo como homem, mas eu não tinha ideia do porquê. Diferente do que acontecia com as outras mulheres, eu não me sentia incomodado”, lembra.

Porém, quando veio a questão da orientação sexual, quando entendeu qual era sua identidade de gênero, as coisas mudaram bastante. “Veio um baque. De uma hora pra outra comecei a não ser mais convidado. Minha orientação sexual era um incômodo”, revela.

Nesse ponto, Tiely aponta para a contradição – ainda presente – no Hip Hop. Um movimento que se constrói em cima de uma ideia de liberdade, de luta contra opressão e espaço para garantir o direito de expressão, rejeita e silencia um comportamento por puro preconceito.

“Estéticas edição zero”

A relação cultural periférica x cultural do centro é um aspecto bem presente na atuação de Tiely enquanto produtor cultural. Atualmente é um dos coordenadores do ponto de cultura Hip Hop Mulher e curador do Estéticas das Periferias.

“Um dos meus primeiros contatos com produção cultural foi a organização e construção das semanas do Hip Hop na Ação Educativa. Nesse processo, comecei a aprender o que era organizar um evento, o que tinha por trás, como chegar nas pessoas… como fazer um evento acontecer”, lembra.

Para Tiely, o alcance e a importância que a Semana do Hip Hop atingiu foram  a inspiração para a criação do Estéticas das Periferias. “Eu gosto de dizer que faço parte do Estéticas das Periferias desde a edição zero”.

O desafio que o Estéticas das Periferias assumiu, de buscar fazer um evento nas periferias de São Paulo, sendo a organização feita por quem está e vive nessas periferias e com apresentações de quem está lá, foi uma mudança muito grande.

“Foi um desafio para mim também, saca? Eu tinha que chegar na minha quebrada e achar quem aqui está fazendo rap? Quem está fazendo teatro? Se a gente não se liga, não fica esperto, a gente fica só naquela de ir para o centro e encontrar a galera que vinha de outras quebradas. O Estéticas se propõe a fazer esse movimento contrário. Por isso que está aí há 11 anos”.

Top-3

Com uma trajetória com tantos episódios marcantes, o pedido para escolher o trabalho que mais se orgulha de ter feito soa como injusto e, só para não ficar sem resposta, se transforma em um top-3.

“É complicado responder isso, mas eu faria o seguinte pódio. Em terceiro lugar, colocaria o “Trans Corpo Ético” porque eu nem sonhava em produzir um livro físico e fiquei muito feliz com essa oportunidade. Em segundo foi atuar no musical “Rock Show”, e depois de uma pausa, Tiely conclui.

“Em primeiro lugar, o que eu mais me orgulho na minha trajetória é eu ter me assumido enquanto eu mesmo, de colocar a minha verdade no que faço, de meter a cara e fazer o que eu gosto, me sentir liberto fazendo o que eu gosto mais sendo quem eu sou.”

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