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“Eu sou a mistura de todas essas coisas”, as mudanças e a multiplicidade artística de Ariane Oliveira

Se você acompanhou as cartas compartilhadas no mês de maio sobre educação popular, celebrando o aniversário da Ação Educativa, seguramente reparou nas colagens que as ilustram, da nossa artista do mês, Ariane Oliveira. Irreverentes e oníricas, as imagens denunciam a marginalização ao mesmo tempo que destacam e valorizam a periferia e sua cultura. São frutos que não caíram longe de seus galhos. Ariane é, ela mesma, capaz de expressar toda essa complexidade de mensagens, aparentemente antagônicas, de forma complementar. 

Nas linhas abaixo, Ariane Oliveira conta como a menina tímida, nascida em Vitória da Conquista (BA), e crescida na Fazenda da Juta, na Zona Leste da cidade de São Paulo, foi conhecendo linguagens artísticas diferentes a partir do envolvimento com políticas públicas de acesso à cultura, aprimorando sua criatividade e senso estético para expressar realidade e desejos de forma plural e única, tanto nas suas pinturas e colagens, quanto nas suas performances.

Dançando com sacolas nos pés

– A primeira linguagem que tive contato foi o teatro, ainda muito novinha, com uns 9 anos. Foi quando surgiram os Centros Educacionais Unificados (CEUs), que fizeram a diferença no acesso das periferias a esse tipo de aprendizagem. Eu fazia iniciação teatral no CEU Rosa da China com alguns amigos, e mesmo não sendo uma pessoa super participativa nos exercícios, achava incrível. Era uma caminhada de meia hora desde o bairro Fazenda da Juta, mas íamos juntos todo final de semana e passávamos o dia inteiro.  

Sou uma pessoa muito tímida, observo muito antes de me permitir participar das coisas.  Com o tempo, fui me sentindo mais à vontade e me envolvendo em mais atividades e percebi que, um pouco antes do horário das aulas de teatro, tinha uma professora de Jazz, Gisele. Ela me colocou em contato com a dança, o que foi muito marcante pra mim. A gente entra em um outro estado de sensações quando está dançando, qualquer ritmo que seja.

Dançando, eu passei a fazer parte do Projeto Vocacional e cheguei a me apresentar em muitos CEUS da cidade, danço até hoje. Nessa época, tinha uma história que sempre contávamos nos encontros. Nosso bairro tem uma história muito forte de luta dos movimentos de moradia, com a qual temos uma identificação muito grande. Como eu e meus amigos estudávamos num outro território, que diferente do nosso era asfaltado, a gente amarrava uma sacola no pé pra não sujar o tênis, e pra chegar na escola sem ser tão zoado pelo pessoal. Nossa orientadora de dança no Vocacional reconheceu que essa era uma memória muito forte para nós e sugeriu: Vamos dançar isso?

Essa foi uma experiência rica, de chamar as pessoas e avisar “olha, vou dançar numa peça, vai lá me ver!”. Na verdade, eu mesma só falava com algumas pessoas mais próximas, dentro do nosso grupo de amigos, mas minha irmã, Thaís, mais desinibida e comunicativa, é quem convidava o restante do nosso grupo de amigos.

Reconhecer-se como artista

– Na época do Vocacional, a gente recebeu uma sugestão de um dos instrutores para tentarmos inscrever um projeto para o programa VAI, também da prefeitura.Quando você está na periferia, as coisas parecem sempre muito distantes. Por mais que se tratasse de um programa de valorização para artistas e coletivos da periferia, a gente não acreditava que era possível.

Foi um ato de coragem que ainda não sei como deu certo. No projeto “Eu autorizo o uso da minha imagem”, éramos quatro jovens – três meninas e uma pessoa hoje trans não binária – falando sobre quem éramos naquele momento, sobre a nossa sexualidade e as questões que ela envolvia. Eu sou uma pessoa tímida, mais observadora, mas sempre falei sobre esse tema com tranquilidade. 

Com a aprovação, a gente tinha um cronograma de apresentações para cumprir a cada final de semana, passando por CEUs, teatros e equipamentos culturais da cidade.  Nesse momento eu me senti diferente, foi a primeira que recebemos pra dançar, e tínhamos como dever ensaiar entre as apresentações. Era tudo muito novo pra nós de Coletive Zoooom (que continua existindo, mas hoje atua de uma outra forma). 

Criamos uma performance que começava no meio da rua, ou no estacionamento do espaço da apresentação, e fazíamos um cortejo até o palco, com música, uma maquiagem criativa, era muito legal. A gente contava com uma orientadora que fazia um trabalho de corpo com a gente, tinha um olhar de fora com uma preocupação estética e que tornava o trabalho mais emocionante, também.

Hoje, há alguma diversidade entre os artistas orientadores do Vocacional e do Piá, não que seja suficiente. Na minha época, os orientadores vinham da Vila Madalena pra Juta, não conversavam com a gente promovendo o acesso, e o estímulo para que a gente se reconhecesse como artista. Eu tive a sorte de ter bons educadores que faziam falas extremamente importantes para que eu me identificasse como artista e continuasse me dedicando, mas não era assim com todos os participantes.  

Multidesfoque

Quando eu tinha uns 17 anos, eu participei de um curso de fotografia no Instituto ImageMagica, no qual eu aprendi a fotografar e participei da minha primeira exposição. Nessa época, eu achava que era um problema eu ficar trocando de linguagem, uma hora fotografando, na outra ia pras cênicas, noutra eu dançava. Eu sentia que não poderia ficar perdida assim ou não conseguiria construir uma carreira. Só recentemente eu consegui entender que essa é a minha trajetória e que tá tudo bem, eu posso ser assim.

Já com uns 20 anos, trabalhei como monitora no MUBE e fiquei enlouquecida de trabalhar com vários estudantes de artes visuais em um museu – lugar que eu amo. E ali fiz um monte de freelas com diversas atividades, até como modelo vivo nu, ia em festas nas casas dos artistas, estava em contato com o mundo das artes visuais e pensava: Humm… Quero aprender isso aí!

Comecei uma faculdade de artes visuais e passei a ter melhor noção de técnica, mas tinha uma série de aulas de didática que tinham uma proposta de educação que ia completamente contra aquilo que eu acreditava e praticava dando oficinas. E eu tinha aula com essa professora todos os dias. Resisti por dois anos, tive contato com outros artistas e possibilidades de trabalho visual, coisas que hoje considero importantes de conhecer porque depois a gente desconstrói e faz do nosso jeito. 

A colagem é uma loucura bem recente na minha vida, a pintura é mais antiga. Eu fazia muitas colagens analógicas na faculdade, mas nunca me empolguei porque nunca tive um espaço de trabalho e criação dentro da minha casa. Todo material ficava em uma caixa, e quando eu ia produzir alguma coisa, tinha que preparar o espaço, cortar as revistas, fazia uma bagunça, minha mãe reclamava, acabei deixando esse processo pra lá. 

Depois de um curso de fotografia, comecei a fazer algumas manipulações, vi que saiam trabalhos bons, as pessoas gostavam e eu me divertia muito. Eu adoro essa coisa meio surrealista, de criar imaginários possíveis deixando pra cada pessoa fazer sua leitura. E a gente ainda tem a vantagem de poder usar um mesmo “recorte” em obras diferentes, não gasta tanto papel.

Força da expressão

– Recentemente, no Festival das Juventudes, escolhi fazer uma vídeo-performance, mas tinha muito do meu trabalho visual, também. Eu fico tentando relacionar as linguagens, e o bom é que as artes visuais são muito amplas. Isso tem a ver comigo, eu sou uma mistura dessas coisas todas.

Eu escolho a linguagem artística para me expressar a partir do que o meu corpo fala. Pode parecer good vibes demais, mas é isso. Principalmente agora na pandemia, quando eu sinto que tô muito parada e vou dançar, é o corpo quem manda mesmo. Quando tô cansada de passar tanto tempo na frente das telas de computador, celular pra fazer reunião ou encontrar os amigos, então resolvo que vou pintar. Eu adoro essa possibilidade de sujar as minhas mãos nas tintas pra fazer as minhas aquarelas.

Mas pintar é caro, folha de aquarela, pincéis, tinta, é tudo muito caro. Na mesa digital não tenho esse problema. Há quem diga que é mais fácil, não acho. São técnicas e possibilidades bem diferentes. Como ainda não tenho um atelier para deixar um cavalete aberto, eu divido um escritório de home-office com a minha companheire, fica muito mais prático. Atualmente, eu tenho usado a arte digital para atender encomendas, até para eu conseguir dar conta do prazo.

Artista trabalhadora

– Uso mais a pintura digital porque é o que eu tenho mostrado mais, também. Venho falhando em mostrar minhas outras linguagens, mas acontece que é muita coisa pra dar conta. Você precisa trabalhar, pagar as contas, estudar, ser criativo para desenvolver os trabalhos e ainda ser social media de si mesma, não tem como. Não que eu não queira publicar, mas por não ter esse tempo de organização das contas todas. 

Eu trabalho pra poder ser artista, preciso de dinheiro pra comprar material. Para oferecer uma boa arte, é preciso gastar mais com folha de aquarela, não dá pra comprar quaisquer pincel e tintas. Eu nem compro os itens mais caros, mas os medianos já são caros pra mim, vai muito dinheiro nisso, por mais que meu trabalho seja relativamente bem remunerado.

Eu estou como artista educadore no PIÁ , um trabalho de iniciação artística. Eu gosto de estar com as crianças, é um momento de laboratório de criação, livre, elas que propõem as atividades. Além disso, faço a comunicação local e regional no observatório Ecos e Reflexos da América Latina, que olha para as violências na infância no Brasil, Colômbia e Nicarágua. Nesse espaço a gente está lidando com a dor, e apesar de ser delicadíssimo, eu tento me alimentar disso e oferecer um lado artístico. Por conta desse trabalho, fui convidada para expor meu trabalho artístico na Colômbia e no México, coisa que nunca imaginei. De repente, eu estava na Cidade de Puebla, no México, para participar de um congresso internacional promovido pela Fundacion Juconi, representando o Brasil em uma discussão sobre direitos da infância.

A pauta da infância é muito presente na minha vida, as pessoas me viam fazendo alguma coisa e me chamavam pra fazer oficinas nos Centros de Criança e Adolescentes CCAs, e no Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (CEDECA), mesmo antes de eu ter formação. Acho que se a gente cuidasse mais das infâncias, talvez a gente não tivesse tanta gente com a cabeça ferrada hoje.

Apesar de ser um trabalho bastante exigente, eu tenho a sorte de ter ocupações nas quais eu consigo tentar cavar espaços para unir e divulgar meu trabalho artístico. Eu considero um privilégio, porque conheço artistas que trabalham com fast food, por exemplo, e não conseguem criar uma relação entre o que faz pra pagar as contas e a sua produção criativa.

Utopia de sonhos realizáveis

– Pra ser sincera, contudo, nem eu sei de onde vem minha inspiração, mas tem as coisas que a gente precisa dizer. Eu tô lidando muito mais com a dor no meu cotidiano. Eu me preocupo que meu irmão venha a sofrer algum tipo de violência policial, ele é um menino negro que mora na quebrada. Ou que algo aconteça com amizades trans, ou quando a minha companheire, uma pessoa trans não binária, simplesmente sai de casa. Ou ainda, a partir das minhas próprias vivências como uma pessoa gorda, pansexual.

Suspeito que algo venha dessa minha característica mais visual. Sempre que ouço um relato, uma história, eu visualizo na minha cabeça. Tenho uma sensibilidade intensa, acho que a mistura disso me ajuda a me inspirar. 

Mas, até como uma estratégia de saúde, eu procuro sempre representar essas pessoas de maneira positiva. Tem a ver com meus sonhos e com o que eu acredito que é possível, sem ser utópica demais. Meu sonho de ver essas pessoas num lugar superior, com os obstáculos vencidos. As pessoas precisam ficar bem, ser felizes. E, como eu disse, eu sofro muito, então, além de muita terapia, eu preciso transformar de alguma forma a realidade que eu vejo, ajudar a acreditar nesse sonho de viver num lugar melhor pra todo mundo, principalmente para as pessoas, pretas, indígenas, periféricas e trans.

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