Projeto da Ação Educativa reúne jovens pesquisadoras e agentes culturais na construção de um inventário participativo sobre os patrimônios materiais e imateriais de Santo Amaro e São Francisco do Conde
A memória dos territórios, a valorização dos saberes ancestrais e o protagonismo de jovens mulheres negras estão no centro do projeto Interseccionalidade em Ação – Juventude Negra e Educação, promovido pela área de Educação da Ação Educativa. Desenvolvida no Recôncavo Baiano, a iniciativa reúne nove jovens em um processo de pesquisa participativa que resultará na elaboração de um inventário dos patrimônios materiais e imateriais de comunidades de Santo Amaro e São Francisco do Conde.
Participam do projeto seis jovens agentes culturais, com idades entre 16 e 24 anos, e três jovens pesquisadoras estudantes da Licenciatura da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Todas passaram por um processo seletivo realizado pela Ação Educativa em parceria com lideranças de associações locais. Como forma de apoiar sua permanência nos estudos e garantir condições para a participação nas atividades, as jovens recebem uma bolsa de R$1.200, sendo R$800 destinados à bolsa-formação e R$400 para transporte.
A permanência na escola ou na universidade é um dos critérios fundamentais para participação na iniciativa. Dessa forma, o projeto busca contribuir para a redução da evasão escolar e ampliar as perspectivas educacionais das jovens envolvidas.
Iniciado em maio deste ano, o levantamento para a construção do inventário terá duração de três meses. Durante esse período, as participantes realizam entrevistas com pessoas idosas, lideranças comunitárias e referências culturais dos territórios, registrando histórias, memórias, manifestações culturais e conhecimentos que constituem a identidade das comunidades locais.
O trabalho de campo conta com o acompanhamento da professora Míghian Danae, da UNILAB, que atua como ponto focal do projeto no Recôncavo Baiano. A iniciativa também é acompanhada por Fabrícia Nascimento, Analista de Educação e Relações Étnico-Raciais da Ação Educativa.
Memória, território e educação antirracista
Para Ednéia Gonçalves, coordenadora executiva da Ação Educativa, o projeto dialoga diretamente com princípios históricos da organização.
“O projeto tem uma centralidade na história da Ação Educativa porque reafirma muitos dos nossos eixos iniciais de atuação. Fala de democracia, do direito à participação de todas as comunidades e do papel dos movimentos sociais na preservação da memória da resistência”, afirma.
Segundo Ednéia, a iniciativa também materializa a concepção de educação antirracista defendida pela organização. “Estamos olhando para a perspectiva das mulheres negras na narrativa da história desse lugar. Essa narrativa vai se incorporar à nossa forma de trabalhar a formação com professores. O projeto parte de uma certeza que construímos ao longo da história da Ação Educativa: os movimentos sociais são portadores da narrativa de resistência e da memória coletiva dos territórios”, destaca.
A coordenadora destaca ainda que os conhecimentos produzidos serão sistematizados em uma publicação que servirá de base para processos de formação de professores, gestores escolares e diálogos com as redes públicas de ensino. “Esse inventário dos saberes da resistência negra no Recôncavo Baiano será uma ferramenta para que a escola pública se aproprie dessas histórias e reconheça os territórios como espaços de produção de conhecimento”, conclui.
Juventudes negras produzindo conhecimento
Além da construção do inventário, o projeto aposta na formação de novas lideranças negras e no fortalecimento dos vínculos das jovens com seus territórios. “Esse projeto, aqui no Recôncavo da Bahia, visa alcançar jovens quilombolas, jovens negras e estudantes da educação básica”, explica Fabrícia Nascimento. “Neste momento estamos elaborando um inventário participativo e colaborativo, um levantamento dos bens e atividades culturais dos territórios, sobretudo dos territórios quilombolas do Recôncavo Baiano. O encontro com as jovens é sempre bonito, proveitoso e frutífero.”
A professora Míghian Danae ressalta que a proposta vai além da produção de um documento. “Um dos resultados dessa iniciativa é a produção de um material que voltará para a escola como material pedagógico. Além disso, o projeto visa fortalecer e criar lideranças de mulheres negras, desde o ensino médio, para pensar seus territórios e alternativas de apropriação dessa cultura”. Para ela, a metodologia adotada representa um compromisso político e educacional. “Fazer esse inventário a partir de mulheres negras que estão no ensino médio, apoiadas por jovens universitárias, é um compromisso político e educacional com a população negra. O projeto tem dado diversos frutos além do material pedagógico; a própria formação e inserção dessas mulheres negras em suas comunidades também é um dos nossos potenciais”.
Aprender com quem construiu a história
Nas atividades de campo, as jovens entrevistam moradores mais velhos e referências culturais dos territórios, registrando narrativas que ajudam a compreender as formas de resistência e organização das comunidades ao longo do tempo.

Mariana, de 17 anos, moradora da Ilha do Paty e estudante do 2º ano do ensino médio no Colégio Estadual Anna Junqueira Ayres Tourino (CEAJAT), conta que a experiência tem ampliado seu olhar sobre a comunidade onde vive.
“Estou aprendendo mais sobre o lugar onde moro e conversando mais com as pessoas idosas da Ilha do Paty. Espero passar isso para outros jovens, para que eles entendam, como eu entendi, que é necessário conhecer mais sobre o lugar onde a gente mora”, diz a jovem.
Para Letícia, também de 17 anos e moradora do Quilombo do Monte Recôncavo, o projeto tem proporcionado novas descobertas sobre sua própria história.
“O principal impacto desse projeto é conhecer mais sobre a nossa cultura e sobre a gente. Acho que não temos muito acesso a essas informações. O projeto está dando mais conhecimento sobre isso e me proporcionando uma nova oportunidade de conhecer outros quilombos além do Monte Recôncavo.”
Já Luliane, estudante da UNILAB e jovem pesquisadora da iniciativa, destaca a importância de reconhecer as manifestações culturais como espaços de produção de conhecimento.
“A partir do projeto estamos conhecendo espaços que existem no nosso território e que não vivenciamos no dia a dia. A ideia de pensar o território a partir da narrativa das mulheres traz um olhar que entende a mulher como centro dessas manifestações culturais. O feminino como território também, o corpo-território em um movimento de resistência”, destaca.
Ao conectar juventude, memória, educação e território, o projeto Interseccionalidade em Ação reafirma a importância de reconhecer os saberes produzidos pelas comunidades negras como parte fundamental da construção do conhecimento e da história brasileira. Mais do que registrar memórias, a iniciativa fortalece lideranças, amplia oportunidades educacionais e contribui para que as narrativas de resistência sigam vivas nas escolas e nos territórios do Recôncavo Baiano.