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Novas Carolinas: “Viviane Abrahão usa a voz para inspirar mulheres negras”

Uma mulher negra e artista talentosa, mas também consciente do quanto a sua presença incomoda e, em diversos espaços, não é bem vinda. O fato deste resumo servir para contar parte da história da escritora Maria Carolina de Jesus, mas também se encaixar na vida da cantora de Viviane Abrahão é o que inspira a série de perfis “Novas Carolinas”.

Viviane Abrahão é cantora e criadora do projeto: “Canto da Mulher Negra”. Integrante do núcleo curatorial do Estéticas das Periferias, Viviane usa da sua música e da sua atuação político-cultural para ajudar e motivar outras mulheres a conquistarem seu espaço dentro do samba ou mesmo de outros estilos musicais.

Ela conta que decidiu virar cantora profissional após os 48 anos, com os filhos ‘já criados’. “Eu sempre gostei de samba, mas sempre trabalhei no mundo corporativo. Como fui mãe muito jovem, eu decidi que meu foco seria trabalhar com algo que me desse estabilidade, ‘carteira assinada e plano de saúde’. Quando cheguei aos 48 anos, com meus filhos já criados e estabelecidos, decidi que iria viver só de samba”, recorda.

A vida de cantora profissional foi marcada por um processo de amadurecimento na atividade e também pela preocupação com o fortalecimento de outras mulheres negras na vida artística. “Mesmo com uma banda minha, com músicos que tocavam para mim, era difícil os homens aceitarem o que eu pedia, tocarem do jeito que eu queria. Hoje, não tenho nenhuma dificuldade de me impor, fica comigo quem me ouve, me respeita enquanto artista”, declara.

Normalmente, conta Viviane, o que deixam as mulheres fazerem numa roda de é cantar uma ou duas músicas’. “Já aconteceu – e não foi só uma vez – de um homem vir e tirar o microfone da minha mão, no meio da roda de samba”, lembra.

O projeto “Canto da Mulher Negra” surge como uma resposta a este e outros comportamentos de quem resiste ou que não aceita a presença da mulher negra. O objetivo do projeto é incentivar e preparar outras mulheres negras para assumirem o protagonismo do seu canto, sentirem-se confortáveis e colocarem para fora toda a potência, toda força que há em suas vozes.


Para a artista, as rodas de samba ainda precisam entender que as mulheres, principalmente as mulheres negras, devem ser o espaço respeitado. “O samba”, explica, “não pode seguir deixando a mulher preta de lado”. 
Sobre ser vista como uma “Nova Carolina”, Viviane diz ser uma grande honra e orgulho. Isso porque, avalia, Carolina foi um grande marco na história da cultura brasileira, da expressão cultural afro-brasileira. “Entre tudo o que ela fez e deixou para nós, mulheres negras, a inspiração está entre as mais importantes”, aponta.

Por isso, Viviane conclui que “ser uma ‘Nova Carolina’ é fazer parte desta história de mulheres negras, que Carolina Maria de Jesus representou tão bem. É poder inspirar outras mulheres negras”.

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