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O corpo político de Patrícia Borges, mulher trans poeta e ativista

A eloquência poética e a luta constante pela existência de uma militante que foi agredida por tentar – e conseguir – ver-se representada nos espaços políticos da cidade mais populosa do país.

Símbolo da suposta diversidade da capital de São Paulo, a Avenida Paulista sempre recebeu manifestações de distintas matizes ideológicas que, nem sempre com a cobertura conivente da imprensa, disputam o debate político do país. Incontáveis marchas progressistas e conservadoras cruzaram seus quase 3 km, do Paraíso à Consolação, sempre acompanhadas da proteção ou do monitoramento das forças de segurança pública.

Durante a campanha eleitoral de 2020, Patrícia Borges achou que também poderia usar deste espaço para defender a causa que sustenta não só como uma bandeira, mas também na sua condição de existência. Patrícia é uma mulher trans preta, engajada em defender o direito de pessoas como ela de serem respeitadas e participarem da política, e fazia campanha para a então candidata a vereadora Érika Hilton (PSOL-SP).

Contudo, a diversidade da avenida não a acolheu tão bem quanto o faz para os discursos antidemocráticos que estampam a fachada da Fiesp desde a última eleição presidencial. Patrícia foi ofendida e agredida, num crime eleitoral ainda impune, como tantos outros que já foram cometidos contra a ativista.

Não seriam as mordidas nem os golpes com uma haste de metal que calariam uma mulher que há tanto tempo luta contra a intolerância para ser ouvida. Para Patrícia, o infeliz episódio recebeu nas urnas a resposta que tarda a vir dos tribunais: Erika Hilton recebeu mais de 50 mil votos, fazendo dela a vereadora mais votada do país naquela eleição.

Com tom vitorioso, Patrícia relata este caso, permeado com suas memórias, experiências e expectativas, num depoimento cheio de poesia e indignação. E deixa avisado: ela não vai se calar. É preciso falar muito mais  para superar a invisibilidade que submete travestis, mulheres e homens trans no país que mais ameaça seus corpos no mundo. Seja nos discursos de seu ativismo ou nos versos que apresenta no TranSarau, Patrícia tem muito a nos dizer. Chegou a hora de ouvi-la.

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Como surgiu o Transarau?

O TranSarau nasce a partir do Cursinho Transformação, que é voltado para a população trans e travesti, e reunia participantes que tinham interesse por manifestações culturais. Os encontros aconteciam no prédio da Ação Educativa [antes da pandemia], e foram ganhando autonomia a cada edição. 

Como um encontro de poesia, o TranSarau traz política. Um corpo trans, travesti, é político. E os nossos corpos, com a arte, são uma manifestação de tudo aquilo que estamos vivendo, para a sociedade poder entender. Quantas vezes não vi pessoas brancas e cisgêneras chorando no Transarau? É um trabalho de formiguinha. Em cada pessoa que vai ao TranSarau, a gente vai plantando uma semente que ela leva pra sua família, que às vezes é misógina ou racista, carregando a compreensão de que elas vão ter que nos respeitar, porque não vamos nos calar. Esse encontro de poesia, de arte, é maravilhoso, e formador.

A gente tem um histórico de opressões que nos acompanham desde criança quando querem nos colocar numa caixinha, e o TranSarau vem como um divisor nas nossas vidas, porque ele rompe essas barreiras com arte e poesia – que nos acalenta, que pode nos curar, como me curou. Essa é a verdade, esse é o significado do TranSarau, levar adiante a palavra trans e travesti. 

O que o TranSarau e a poesia representam na sua trajetória?

As pessoas trans não têm direito ao estudo. Eu não tive direito ao meu sonho. Eu queria ser advogada, mas parei de estudar na sétima série porque meu pai me expulsou de casa. No momento em que eu deveria estar estudando, eu tive que ser minha própria professora. Contudo, também foi isso que me faz ser a pessoa que sou aos 30 anos, com a cabeça que tenho.

Quando voltei a estudar na EJA (educação de Jovens e Adultos), que tem um conteúdo reduzido, eu não me sentia preparada para fazer uma prova, prestar Enem, tentar alcançar meus sonhos. E a poesia surgiu pra mim como um divisor de águas. Não tem uma forma definida, não preciso seguir as regrinhas de introdução, desenvolvimento, conclusão. A poesia é livre, ela te permite brincar, não é como uma dissertação do Enem. Através dela eu consigo falar dos temas atuais com liberdade.

A poesia me permite ser positiva, acreditar que eu posso ser semente. Quem sabe um dia eu não consiga criar a “Casa Patrícia Borges” para ajudar outras pessoas trans e travestis? A gente tem que virar história e a gente tem que dar valor para as pessoas em vida. Qual o sentido de eu exaltar as pessoas depois de mortas, como se faz hoje com Brenda Lee e Laura Vermont?

Como você acha que a educação promovida por essas sementes do TranSarau podem proteger a população trans e travesti?

As pessoas fazem campanha contra o que chamam de ideologia de gênero, mas se esse entendimento, se essas informações tivessem chegado pra mim e para os meus formadores na escola, eu não teria sofrido tanto a minha vida inteira. Eu não teria sido chamada tantas vezes numa sala para ouvir que não seguia as diretrizes de um colégio. Eu não teria apanhado tanto, tendo que sair na mão com diversos alunos para mostrar que eu era uma mulher.

Uma questão relevante também é o racismo. Grande parte das vítimas de transfobia são travestis pretas — segundo reportagem da Agência Gênero e Número, com base em um relatório da Antra, 78% das pessoas trans e travestis assassinadas no ano passado eram negras — e essa violência também precisa ser combatida. 

A violência contra travestis e transexuais é muito latente no país, e infelizmente você foi vítima recentemente de uma agressão…

Eu fui agredida em campanha, foi um crime eleitoral também. Eles querem matar a possibilidade das nossas corpas ocuparem os lugares em que não estamos — a estimativa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) é de que 90% das pessoas trans e travestis acabem passando pela prostituição em algum momento da vida. Eu estava lá, de frente ao Center Três, fazendo campanha, dialogando sobre a importância de eleger a primeira vereadora trans, travesti, preta. 

Eu ofereci um panfletinho para uma mulher cisgênera branca que passava, ela respondeu ríspida “tudo cambada de viado” e seguiu. Logo depois ela voltou, com um pau de selfie, daqueles antigos, para dar na minha cara. Com ela, vieram mais dois rapazes, e no meio da agressão ela até me mordeu. Minha sensação é de que vivi a mesma brutalidade que a do “episódio da lampadada” — o caso ocorrido em 2010, no qual amigos que retornavam de uma balada foram agredidos com uma lâmpada fluorescente e ofensas homofóbicas. Em resposta à agressão foi criado o coletivo A Revolta da Lâmpada.

Não havia segurança, alguma proteção?

Felizmente eu fui apoiada por advogado, fui para a delegacia, fiz exame de corpo de delito, fui amparada como nunca na minha vida, me senti gente, uma travesti não tem essa assessoria. Muitas são agredidas, muitas são feridas… eu já levei facada, eu já levei tiro, eu já passei por diversas situações em que eu não tive o amparo que eu recebi desta vez. Eu estou processando eles, está na mão de um delegado que está avaliando se houve crime… esse processo falho que nós temos…  

É isso, eu fui agredida em campanha, mas a gente teve uma resposta nas urnas, né? A Érika foi eleita como a mulher mais votada do Brasil! Uma mulher, travesti, preta, periférica, que passou pela prostituição, e que teve essa força dentro dela de dizer “Eu mereço muito mais!” e agora vai ecoar várias vozes que foram silenciadas e mortas. Essa é a resposta para os bolsonaristas, para a bancada evangélica: a gente não vai se silenciar:  Para cada um corpo que ficar ao chão, mil renascerão para ecoar as nossas vozes.

Como você vê a possibilidade de influenciar nas políticas públicas para a população trans e travesti nesse momento?

É um trabalho árduo, mas o mandato da vereadora transvestigênere Érika Hilton nos permite ver possibilidades. Vamos precisar de muita força, porque a gente pode sugerir uma lei, mas são as 55 cadeiras que vão decidir. Contudo, só a ocupação desta cadeira já é uma conquista, já é uma vitória para estes corpos que estão à margem, na drogadição, na prostituição, na vulnerabilidade imposta pelo país que mais mata trans e travestis. E são mortes com requintes de crueldade, porque o mesmo homem que me deseja, me fere e me extermina, por ele ser criado num cristianismo que promove o ódio e não o amor. Essas políticas são necessárias para que os nossos corpos deixem de ser mortos.

Já há alguma política que pode apoiar a população?

O Decreto Municipal de 58.228/2018 tornou obrigatório o reconhecimento do nome social e da identidade de gênero de travestis, mulheres transsexuais e homens trans na cidade de São Paulo. No entanto, muitas pessoas trans estão vendendo seus pertences para pagar advogados, mesmo sem ter condições financeiras, para ter atendido o direito de possuir um nome que corresponda à sua identidade, que deveria ser gratuito.

Ainda há diversos entraves burocráticos, porque é necessária uma série de certidões e protestos, e os cartórios aproveitam, porque cobram por eles. Para conseguir fazer a retificação do seu nome, você pode precisar pagar até R$150,00, por conta das certidões todas. Algumas pessoas vão conseguir pagar esse valor, mas a vulnerabilidade sempre afeta as pessoas pretas e muitas travestis migram de outras cidades para fazer sua retificação em São Paulo, o que aumenta muito esse custo. 

Para garantir o acesso a esse direito, estamos desenvolvendo o site PoupaTrans, que vai tirar toda a linguagem formal do decreto e mostrar, na nossa linguagem descolada e acessível, que a pessoa pode fazer a retificação do nome sozinha, sem se comprometer financeiramente*.

*Assim que o site for lançado, a entrevista será atualizada com o link.

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