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Um corpo negro dançando é uma mensagem política

A dança não é só algo bonito ou agradável de ser ver, ela é um importante canal de discurso político, social e artístico. Esta é a definição dada pela coreógrafa Gal Martins, curadora da mostra “Corpo político – o rasgar do tempo e do espaço”. A exposição acontece entre os meses de março e maio no espaço Periferia no Centro, na ONG Ação Educativa, com apresentações focadas na dança contemporânea negra e de raízes africanas.

“Os espetáculos que compõem a mostra apresentam sempre questões ou manifestações de corpos que de alguma forma estão a margem. São espetáculos que possuem estéticas voltadas para temas de impacto social e a celebração de manifestações artísticas  oriundas do processo da diáspora africana”, explica Gal.

A artista, que faz parte da companhia Sansacroma, é enfática ao reivindicar um outro olhar em relação a dança contemporânea negra e de raízes africanas, ao qual, segundo ela, é vista como algo acessório ou lúdico quando é proposto o debate sobre racismo, ativismo negro e ação política. “Um espetáculo de dança tem a capacidade de comunicar muita coisa, de criar um canal de diálogo único com quem assiste. Corpos negros dançando em um palco, seja dança contemporânea ou tradicional, significam muita coisa, não é uma ‘mensagem mais branda’ ou ‘mais bonita’, a carga expressiva é imensa”, observa.

As outras apresentações, comenta Gal, também irão contemplar a cultura negra e urbana, porém de formas diversas, como uma apresentação que baseada no break dance. “A mostra é sobre uma arte muito ampla, com diversas linguagens, por isso a ideia de, por exemplo, usar o break dance dentro de um ciclo de apresentações contemporâneas. No entanto, a característica central dos “Corpos Políticos”, estão presentes em todas elas, como uma mensagem que atravessa o tempo e o espaço com o objetivo de se afirmarem e se manifestarem”, pontua.

A primeira apresentação, realizada no dia 12 de março, foi inspirado no livro “Contos Negreiros”, ganhador do prêmio Jabuti de Literatura em 2006. A apresentação criticou o suposto “racismo cordial” brasileiro. Já no dia 26, última quinta-feira do mês, serão exibidos diversos trabalhos de vídeos de dança e o espetáculo: Dikanga Calunga, da – Nave Gris Cia Cênica. A apresentação vai abordar relações da ancestralidade feminina na contemporaneidade ao transitar entre memórias pessoais e dramaturgias presentes nas mitologias e manifestações tradicionais de origem banto, pensando o corpo como encruzilhada: lugar de encontro, de chegada e partida.

Sobre o fato das apresentações “periféricas” sendo realizadas no centro da cidade, Gal vê um importante espaço que proporciona o encontro de tudo aquilo que está na margem, nos cantos, é um “encontro de toda a complexidade da cidade”. “Poder reunir uma diversidade de propostas e estéticas para a dança, que trazem corpos que estão margem para ocupar um espaço cultural localizado no centro da cidade é mais que necessário. Faltam espaços na região central que celebrem este encontro e que fomentem trabalhos em dança com essas características. O espaço que a mostra oferece é muito importante e necessário”, finaliza.

Espetáculos em Abril:

Dia 16 – Trupe Benkady

Dia 23 – Yebo, com Gumboot Dance Brasil

Endereço: Espaço Cultural Periferia no Centro – Ação Educativa – Rua General Jardim, 660. Vila Buarque. (11) 3151-2333 r. 126

Publicado originalmente no site da Agenda da Periferia

 

 

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