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A trajetória educadora de Sérgio Haddad, em sua carta no aniversário da Ação Educativa!

Para Giselda Perê, em 05/05/2021

Salve Giselda, uma alegria escrever para você! Não nos conhecemos pessoalmente, pois a pandemia nos mantém distantes do predinho, senão, provavelmente, estaríamos trabalhando na mesma sala. Te escrevo para comentar minha proximidade com a educação popular. Ela é de longo tempo, desde quando eu estudava no secundário, na década de 1960. 

Sim, é isto mesmo, precisamente 1967. Naquele ano, em plena ditadura militar, fiz um curso sobre como alfabetizar com o chamado método Paulo Freire, que me permitiu alfabetizar adultos, junto com alguns colegas, em uma comunidade próxima ao colégio onde estudava. 

No segundo ano da faculdade, comecei a dar aulas em uma escola católica e, quatro anos depois, fui convidado para coordenar, na mesma escola, um curso supletivo, o que é hoje a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Esse curso era noturno e atendia pessoas que trabalhavam, e muitas vezes moravam, nas casas do bairro de classe média alta onde estava a escola. Também estudavam trabalhadores e trabalhadoras do comércio de Pinheiros e de outros bairros ao redor. Fiquei nesta escola por 21 anos, até 1980, experiência que marcou a minha vida profissional e militante, pela proximidade com a educação popular e a EJA. 

Giselda, vc já teve uma experiência que marcou a sua vida profissional e pessoal?  Na universidade fiz o meu mestrado e o meu doutorado neste campo do conhecimento, depois trabalhei na PUC- SP, ministrando disciplinas, fazendo pesquisas e orientando trabalhos de mestrado e doutorado, quase sempre sobre EJA e educação popular. Já aposentado pela PUC, aceitei trabalhar nos últimos cinco anos na Universidade Caxias do Sul. 

Como ativista social, no início dos anos 1980, me tornei voluntário no Centro Ecumênico de Documentação e Informação – CEDI, realizando pesquisa participante no campo da saúde da diocese de Goiás. Depois seguiu-se mais uma série de trabalhos, dentre os quais destacaria dois projetos de alfabetização baseados em Paulo Freire: um com seringueiros no Acre, demandado por Chico Mendes, liderança sindical de Xapuri; e outra com ribeirinhos do rio Solimões, por demanda do Movimento de Educação de Base – o MEB, da CNBB

O CEDI me proporcionou entrar em contato com os movimentos sociais que lutavam pelos seus direitos e pela redemocratização do país na saída da ditadura. Foram momentos inesquecíveis. Que momentos inesquecíveis marcaram a sua vida militante? 

Em 1994, o CEDI fechou as suas portas e 4 novas organizações se formaram a partir dele. Uma delas foi a Ação Educativa que ajudei a fundar junto com um conjunto de pessoas e fui seu primeiro coordenador executivo por 12 anos. De lá para cá muitas coisas ocorreram e seria muito difícil descrevê-las neste pequeno espaço. Hoje coordeno a unidade de projetos especiais e dentro dela tenho participado de muitas lives, entrevistas e podcasts, produzido textos e trabalhado com formação sobre a vida e a obra de Paulo Freire que têm me dado muito prazer, além da importante dimensão política. Que trabalho prazeroso, unido à dimensão política, você já vivenciou? 

Muita coisa, não é? Mas é porque também tenho 71 anos, e trabalhar e aprender coisas novas sempre me motivaram e motivam até hoje para levar uma vida comprometida com os setores populares. Meus pais eram libaneses e chegaram no Brasil durante a segunda guerra mundial. Meu pai faleceu com 54 anos, quando eu tinha catorze, minha mãe com 94. Eles cuidaram para que eu tivesse uma boa escolaridade e me formaram em valores que carrego comigo até hoje.

Mas meu compromisso com setores populares, marginalizados e discriminados eu fui adquirindo ao longo da vida, na militância estudantil, com as lutas e mobilizações dos agentes de saúde, das pastorais sociais, com seringueiros, ribeirinhos, com feministas, com o movimento negro, com os alunos e alunas dos cursos noturnos e das universidades, com a juventude e os movimentos culturais. Também com meus e minhas colegas de trabalho que me ensinaram, pelo diálogo e pelo exemplo, a ser uma pessoa melhor, mais ética e respeitadora dos direitos humanos, da diversidade e da pluralidade de ideias. Finalmente, pelas ideias de Paulo Freire, Carlos Brandão, Celso Beisiegel, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, bell hooks, Marx, Gramsci…  além de muitos romances. 

Benvinda, Giselda, na Ação Educativa! O que a fez vir trabalhar aqui, quais as suas motivações?

Sérgio Haddad
Coordenador de Projetos Especiais da Ação Educativa

Quer saber como foi a resposta da Giselda? Confira no Link abaixo:
A persistência de Giselda Pereira, coordenadora do Mude com Elas, nos caminhos da educação

Confira a primeira da série de cartas que celebram a educação popular e o 27º aniversário da Ação Educativa, escrita por Denise Eloy:
Uma carta para celebrar a educação popular e os 27 anos da Ação Educativa

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