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Como a poesia levou a trilha de João Innecco para a pedagogia e para a esperança

São Paulo, 19 de maio de 2021


O silêncio do trem!
Pro poema que vem!
(grito de honra de poetas LGBTs no CDPIII de Pinheiros)

Querida Edneia, 

A chegada de uma carta pode ser espera, pode ser esperança. A sua carta chegou à noite como um bálsamo, e nela existem tantas camadas de beleza que quero começar agradecendo. 

Lembro de uma vez ir à Ação Educativa falar sobre o Cursinho, acho que se tratava de uma formação interna da Ação. O Cursinho tinha acabado de chegar, em 2017, e essa linda relação estava só começando. Nós estávamos deslumbrados com uma sala de aula completa, com internet, e com toda a estrutura física e aliança política que implicavam esse passo para o coletivo. De tudo que disse, me lembro de pedir que vocês nos formassem também, que orientassem esse grupo de militantes e educadores populares que estavam tentando proclamar toda uma nova sala de aula, com Paulo Freire e com a pedagogia queer. Firmes, mas precisando de amparo também pra entender o que éramos, o que somos.

Sobre isso também falamos nesse encontro que você relatou na feira de livros. O Cursinho passava por mais uma reestruturação e eu, angustiado, pedi ajuda no meio da feira. Foi a sua voz que me fez reparar que educação popular é isso, ela tem essas características que beiram sim algumas crises porque compete com a vida. Inesquecível como aprendi com essa conversa! Você também me contou sobre os adinkras, que, meses mais tarde, acabaram me levando a fazer uma oficina de estêncil com os educadores do Cursinho Popular Transformação. 

Tenho refletido que a doulagem é muito um processo da educação. E também de construção afetiva. Acho que você, Néia, é esta doula para nós, para mim. Teve uma outra ocasião em que te convidamos para falar um pouco sobre educação popular. Você chegou com vários registros dos discursos do Cursinho em entrevistas, na internet, em propostas, termos. Você nos trouxe um espelho de como nos apresentávamos para que pudéssemos entender quem éramos, o que fazíamos, o que disso era educação popular. E no final, perguntou: cadê esse tesão, de Transformação? Isso até hoje reverbera em nós.

Enfim, foi dentro do Cursinho Popular Transformação que decidi transferir meu curso de graduação, de psicologia para pedagogia, e, assim como você, me joguei. De repente eu estava na Faculdade de Educação, frequentando a Ação Educativa e dando aulas na penitenciária. E eu ainda sabia bem pouco do que era tudo isso. 

O seu relato sobre as palavras ÔNIBUS, TIJOLO e POVO me provocou várias gargalhadas. A revolta dos alunos é mágica! E é reconfortante ler que é mesmo uma construção esse devir educadore. Assim como o devir educande. Essa imponderabilidade, essa revolta que brota de repente, é puro suco pro processo, eu penso. Em oficinas de poesia, por exemplo, isso está sempre para acontecer. Estados de ânimo que nem sempre se alcança, e nem sempre meu ponto de partida para uma conversa é como POVO. Até porque não precisa ser, né? 

Me lembrei de uma história que tenho com a palavra ESPERANÇA. Eu estava construindo um Laboratório de Comunicação no CDP III de Pinheiros com LGBTs. Por ser uma unidade masculina, eu estava me encontrando com homens cis gays e bissexuais, mulheres trans e travestis. Começamos em 15, terminamos em 10 pessoas – entre desistências, castigos e transferências. 

Listamos as palavras. Palavras viraram poemas. Estávamos no fim do nosso laboratório, no segundo semestre de 2019, e fomos convidados para apresentar o nosso livro, O Silêncio do Trem, na confraternização da escola, onde alguns outros presos poderiam assistir. Decidimos preparar uma performance intercalada do jogral “O silêncio do trem / pro poema que vem”, e então cada poeta recitava o seu poema. Um dos poemas era ESPERANÇA, e combinamos um jogo de corpo e voz, e na hora de ensaiar, na rapidez ali da sala de aula, fui chamando nome por nome para praticarmos esse poema, mas esqueci de convocar uma das presentes. Quando percebi, ela estava num canto bem chateada. Quando fui conversar, ela me disse: você me excluiu justo no poema esperança? Você tem noção do que isso significa aqui dentro?

Acho que a poesia tem esse lugar na educação, Neia. De ser suporte para assuntos latentes, de ser um lugar possível para esperançar e praticar o reconhecimento do outro, de si. De ser autor, autora. De reivindicar alguns direitos. De produzir registros que possam ser trampolins da linguagem, grunhidos que superam fronteiras e aproximam as margens. Assim nasceu a Antologia Trans. Assim nasceu o Sarau Asas Abertas. Assim nasceu o Silêncio do Trem. Publicações que carregam não só metodologias que derivam dessa pesquisa que tenho feito sobre poesia e educação, mas também o fato de terem sido coletivas, gestadas por muitos umbigos, cabeças em profusão para o nascimento desses documentos, que são de alguma forma a cartografia dessas existências na linguagem poema. 

E sinto que é assim que desejo continuar agora. Com a poesia debaixo do braço sendo uma possibilidade para abordagem pedagógica das questões sociais, partindo dessa identidade pessoal para ganhar identidade política. Se existe um lugar para o poema, esse lugar é na sala de aula – mediando conflitos, sensibilizando grupos, possibilitando desabafos, confissões, memórias. Se existe uma aliança que o currículo escolar pode fazer é com a ciência do texto poético – vejamos o cordel, por exemplo. 

Sei lá! Sou meio sonhador né, Neia, você me conhece e também sonha junto. Por isso tô falando tudo isso nessa carta. Fico emocionado de pensar que você, discreta ou ruidosamente, acompanha minha movimentação. Admiro muito você e agradeço às sincronicidades por termos nos encontrado, pela chance de trocar com inteireza. 

Que Paulo Freire, Salete Van der Poel, Edneia Gonçalves, Adelaide Maria de Estorvo Alencar da Silva, Naná DeLuca, Célia de Lourdes, Evelyn Ariano, Guacira Lopes Louro, entre outros educadores que li, conheci, aprendi, fui afetado, que todes sejam abraçades pelo meu beijo agradecido. 

com amor, 

João Innecco 

Esta é a resposta de João para as perguntas que Edneia o enviou nesta carta que você pode conferir no link abaixo: Ônibus e Tijolos no caminho educador de Edneia Gonçalves

Confira a primeira da série de cartas que celebram a educação popular e o 27º aniversário da Ação Educativa, escrita por Denise Eloy: Uma carta para celebrar a educação popular e os 27 anos da Ação Educativa

Confira também a troca de cartas entre Sérgio Haddad, Coordenador de projetos especiais da Ação, e Giselda Pereira, educadora do projeto Mude com Elas.

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