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Ônibus e Tijolos no caminho educador de Edneia Gonçalves

São Paulo, 11 de maio de 2021.

Querido João!

Que provocação boa! Escrever uma carta para você é um prazer enorme e mais um capítulo de uma conversa que se prolonga desde a primeira vez que nos reunimos na Ação Educativa para falar sobre o Cursinho Transformação e que nunca mais paramos de tecer.

De todas as oportunidades que aproveitamos ou inventamos para trocar experiências e esperançar juntos, pesquei uma memória que sintetiza muito bem a maneira como desenvolvemos essa relação tão carinhosa e cuidadosa com o direito de todes à educação e amizades de qualidade: eu flanando por uma feira de livros no centro de São Paulo e a certa altura nos encontramos. Paramos para tomar um café e de repente estávamos construindo uma complexa proposta de formação de educadores cheia de dimensões, implicações e etapas. A conferência entre um livro e outro parecia tão simples, mas tão cercada de urgência, pois no fundo sabíamos que não poderíamos perder a oportunidade de refletir juntos, sobretudo porque entre nós existe admiração, carinho e confiança…só nos falta tempo para colocar essa alquimia em ação.

Encontros como esse fazem parte de minha aprendizagem da identidade do Cursinho Transformação: território de trocas que desencadeiam impensáveis possibilidades de acolhimento e aprendizagem que confrontam memórias escolares e de vida, normalmente marcadas por experiências de exclusão e violência que se julgavam absolutas.

Falar dessas lembranças escolares me faz resgatar as minhas próprias, que gostaria de compartilhar contigo. Quando me perguntam como me tornei educadora popular respondo que foi a partir de duas palavras: ONIBUS e TIJOLO.

Eu tinha 18 anos e me dividia entre o movimento popular de arte e as aulas de dança, enquanto escapava gloriosamente do vestibular. Nunca me senti atraída pela educação, muito mais pelo excesso de exposição do que qualquer coisa (minha mãe era servente escolar, duas irmãs professoras…), mas apareceu um concurso para alfabetizadores e me joguei. Passei no concurso e de repente virei alfabetizadora de adultos. Relembrando minhas professoras e observando minhas irmãs, providenciei um avental branco com meu nome bordadinho, um porta giz com apagador, um diário de classe e me senti pronta para o início do trabalho. 

A Secretaria de Assistência Social contratou o Vereda (Centro de Estudos em Educação) como instituição formadora e achei que tudo seria simples. Um dos formadores era o tal Paulo Freire, velhinho simpático e paciente que nos dava dicas preciosas. A orientação inesquecível era como poderíamos iniciar a tal roda de conversa, de onde brotariam várias palavras importantes para a alfabetização, palavras que se tornariam textos que fariam sentido para todo grupo. Percebendo nosso desespero, ele sugeriu duas palavras que poderiam suscitar conversas empolgantes: ONIBUS e TIJOLO.

E lá fui eu com ônibus, tijolo, avental, apagador e giz virar alfabetizadora.

As aulas ocorriam no período noturno, em uma creche pré-escola localizada no Pró-Morar Rio Claro – conjunto habitacional construído sobre um terreno contaminado e sem infraestrutura básica para acolher várias famílias recém-chegadas após serem deslocadas de diferentes comunidades da cidade.

Desconfortáveis cadeiras infantis comportando pessoas adultas, iluminação precária nas ruas e na escola, banheiro interditado no período noturno e professora inexperiente…

Primeira aula: roda de conversa sobre tijolo!!! Como vocês construíram a casa de vocês? Quanto custa um tijolo? Quantos tijolos a gente precisa para fazer uma casa?

Revolta geral: Nossa casa não é de tijolo, é uma placa pré-montada que está afundando no terreno contaminado, a casa é pior que as de madeira, quero voltar pro meu bairro, não conheço essas pessoas, os móveis não cabem nessa casa…

Derrotada, voltei pra casa ciente de que apesar da conversa ter se desvirtuado eu ainda tinha o “ônibus”!

Segunda aula: roda de conversa sobre ônibus!!! Qual ônibus vocês pegam para trabalhar? Quais ônibus passam aqui? Qual o número do ônibus? Quantos assentos há em um ônibus?

Revolta pior que a do dia anterior: Professora, aqui não passa ônibus! Esqueceu que nós levamos a senhora até o ponto final do Jardim Ester na hora de ir embora? Burburinho e reivindicações gerais por respeito, denúncias de falas enganosas dos políticos. Saudades da moradia e dos vizinhos anteriores…

Novo sentimento de derrota e, desta vez, acompanhado de muita vontade de chorar. Tinha esquecido que havia caminhado um bom tempo para chegar até a creche e que um grupo de estudantes havia me acompanhado até o ponto de ônibus no final da aula.

Decidi que não sabia dar aula e que pediria demissão na próxima formação.

Terceira aula: eles não queriam estudar, queriam reivindicar, xingar, pensar no que fazer…e eu embarquei nessa prosa junto com eles.

Formação no sábado: expliquei ao velhinho que eu não tinha dado certo como alfabetizadora. Voltaria para a dança porque aquelas pessoas mereciam alguém melhor que eu. Ele me perguntou o que os estudantes disseram e relatei tim tim por tim tim todas as agruras, xingamentos, enfrentamentos, desrespeito e solidariedade que havia aprendido com meus futuros ex-alunos. Ele me disse: que narrativa maravilhosa! Você escutou seus alunos! Você conhece seus alunos! Agora vamos à segunda parte: talvez a palavra certa para trabalhar com essa sala é POVO. O que fizeram com esse povo? Que histórias se juntaram nessa sala de aula?…

Saí da formação pensando: essa palavra pode ser boa mesmo, não tem til, rr, ss, ç…é pequenininha…

Minha aula começou assim: Gente! O que fizeram com vocês? O que fizeram com esse POVO???? Me conta como se chamava o bairro onde vocês moravam? Qual o nome do seu vizinho? O que vocês tinham lá e agora não tem? O que vocês construirão aqui?… Assim surgiram minhas primeiras listas, os primeiros textos coletivos e uma educadora popular. 

Fui alfabetizadora por 6 anos e é exatamente para essa experiência que emocionalmente retorno sempre que entro em uma sala de aula. Agradeço ao Paulo Freire e meus primeiros alunos e alunas pelo aprendizado e paciência!

Minha admiração por você, João, também se construiu assim, ao acompanhar seu processo: discreta ou ruidosamente observando sua movimentação entre o cursinho, os saraus, as aulas de literatura e sua entrega nos processos de formação de educadores. O poder da poesia que se impõe na construção coletiva de trajetórias tratadas com a merecida delicadeza. Eu queria saber da sua voz, João, qual é esse lugar que você encontra para a poesia na educação? Quais foram as referências que te fizeram o educador que você se tornou?

Nas brechas em que pudemos dialogar, espero ter demonstrado a contento que sigo no aprendizado e na dedicação ao que você tenta me ensinar: a educação popular nos mói por dentro, mas vale a pena ser vivida em sua integralidade e imensidão de oportunidades de encontros como o nosso que amplificam o desejo de seguir plantando liberdade onde quer que pisarmos.

Mesmo que voltem as costas
Às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar

Carlos Assumpção

Ednéia Gonçalves

O João respondeu as perguntas de Edneia com muito carinho. Confira no Link abaixo:
Como a poesia levou a trilha de João Innecco para a pedagogia e para a esperança

Confira a primeira da série de cartas que celebram a educação popular e o 27º aniversário da Ação Educativa, escrita por Denise Eloy:
Uma carta para celebrar a educação popular e os 27 anos da Ação Educativa

Confira também a troca de cartas entre Sérgio Haddad, Coordenador de projetos especiais da Ação, e Giselda Pereira, educadora do projeto Mude com Elas.

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