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O Revide criativo da arte-educadora Tati Botelho

Salve Magi, é com amor e saudade que te escrevo para expressar parte do que sinto e tenho refletido nesses “Tempos Difíceis” que estamos atravessando na educação a distância. Ainda observo a vida como cantou Edi Rock em 1990 no álbum “Holocausto Urbano” do grupo Racionais MC’s; um futuro confuso, mas esperançoso para nós que acreditamos na força da arte e cultura e fazemos algo necessário para viver em um mundo justo e humano.

Exu é a rua, os caminhos, as escolhas e o movimento, que ele me guie para compartilhar com você nessa carta as minhas encruzilhadas na educação popular.

Recordo que na infância eu e a minha irmã passávamos algumas férias escolares do final de ano em João Pessoa na Paraíba com a família de meu pai. A primeira paixão pela música vem de uma lembrança afetiva do meu já falecido avô paterno. Ele gostava de cantarolar “Tiro ao Álvaro” do Adoniran Barbosa e me alfabetizou com uma revistinha de palavras cruzadas. A minha avó nos reunia na sala da casa com os meus primos e juntos cantávamos e dançávamos ao som do teclado que vovó tocava. Naquela época eu não fazia ideia de que as minhas memórias seriam, hoje, as histórias contadas na construção das minhas narrativas. Os nossos encontros também fizeram parte da minha formação musical.

Quando pequena, gostava de futebol, disputava campeonato, fiz parte de alguns times e queria ser uma jogadora profissional. A televisão e o rádio sempre ligados nos jogos do Corinthians e da Copa do Mundo. A minha formação política começou nas idas ao estádio com a torcida Gaviões da Fiel, e a admiração respeitosa que aspirei pela história da “Democracia Corinthiana”. Um movimento revolucionário no futebol brasileiro, em que os jogadores não só participavam das decisões diárias do clube, como se manifestavam publicamente pela redemocratização em plena ditadura. Sócrates deixou um legado e aproveitava sua popularidade para levantar bandeiras  além do campo e exercer algo que lhe era tão caro: a liberdade de pensamento e expressão. 

A paixão pela bola despertou minha curiosidade e afinidade pelo Corinthians. Com as cobranças escolares, o sonho de jogar não durou muito, mas se estendeu no período da minha formação acadêmica. Estudei Comunicação Social com habilitação em Rádio, Televisão e Internet. O auge da transição do analógico para o digital, era costume passar horas ouvindo os programas esportivos e musicais. Eu gravava em fita cassete as canções do “Espaço Rap” da rádio 105.1 FM para depois ouvir, escrever, decorar e cantar as letras. Eu me identifiquei com o rapper Sabotage que cantava a realidade da região onde eu morava. Era divertido assistir “Yo! MTV” e aprender mais sobre a Cultura Hip Hip. Os melhores professores e professoras que tive naquela época foram as minhas referências artísticas.

Estagiei um período longo no Memorial da América Latina e ganhei de um companheiro de trabalho da Maureen Bissiliat o livro “aqui dentro – páginas de uma memória: Carandiru”, que mudou o percurso da minha trajetória com o Hip Hop. O meu primeiro contato com a arte educação foi no Presídio Semiaberto – José Parada Neto, em Guarulhos, com as oficinas do “Projeto Como Vai Seu Mundo? ”. Orientadas pelo Eduardo Bustamante e o rapper Dexter 8º Anjo, as atividades eram realizadas por convidados e convidadas de várias linguagens. 

As experiências do cárcere me ensinaram sobre as relações construídas na oralidade dentro de um ambiente de violação dos direitos humanos. Conheci na prática o poder das palavras e dos círculos de cultura nas trocas de conhecimento nos espaços de aprendizagens que aconteciam dentro do sistema carcerário, que mais tarde seriam base dos meus estudos na educação popular. 

Refletindo sobre a minha caminhada, a rua foi a minha escola e os espaços potenciais de vida, tais como os saraus, as rodas de samba, as batalhas de rima e os bailes funk, os movimentos formativos que me permitiram acessar o conhecimento sobre o ser social que sou e a leitura crítica do mundo que tenho erguido. Na quebrada aprendemos e ensinamos, a troca é fundamental para sobrevivência. E o que seria de nós sem as nossas histórias? 

Fui admitida na Ação Educativa em novembro de 2015, senti que estava diante da sonhada realização profissional, o meu sucesso com o rap é estar na sala de aula e dizer para os jovens que todas as pessoas devem ser livres para se expressar de qualquer forma, sobre qualquer assunto, é preciso ressignificar, sonhar e realizar. Atuar no Projeto Arte na Casa com oficinas de arte e cultura no cumprimento de medida socioeducativa em privação de liberdade me trouxe sorrisos e lágrimas, parceiros e parceiras que me ensinaram o que é ser uma educadora; um ser inacabado como nos ensina Paulo Freire. Tenho como combustível a luta pela garantia de direitos das crianças e dos adolescentes. 

Olhando para tudo que já produzimos até aqui, mais aprendi do que ensinei. Educar é uma pausa atenciosa para o exercício de escuta e um olhar crítico para sociedade. Os bons ventos chegaram nas unidades, a poesia trouxe novos questionamentos e reflexões. Importante que os adolescentes estejam mais flexíveis aos conteúdos propostos e receptivos a nós mulheres. Algumas experiências ficam do lado de dentro dos muros, outras levo comigo para o lado de fora das grades. Perdi bastante no caminho, muitos jovens, a confiança, a paciência e o rebolado, mas tenho comigo a certeza de que vale a pena toda entrega. O maior aprendizado é que só o conhecimento nos tira dos lugares de opressão e violência.

No Projeto Arte na Casa, participei de formações, conheci outros educadores e educadoras que também acreditam em uma educação antirracista, com força de mudança e prática da liberdade. Ampliei os meus referenciais teóricos, aprendi a fazer o meu planejamento pedagógico, discuti sobre metodologias e conteúdo. Com os companheiros e companheiras de trabalho participei da construção de livros, revisitei a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura em Parelheiros, fui a exposições, fizemos saraus, fanzines, músicas e muitas atividades artísticas nas unidades e fora delas. Ocupamos o Fórum e o Sesc Santo Amaro com os adolescentes, me emociono com o resultado das produções desenvolvidas em sala de aula.

Produzir conhecimento é o nosso revide. A sociedade diz o tempo todo para esses jovens que eles não vão ser ninguém, que não vão passar das estatísticas, olha só aonde chegamos. Sou a continuidade de muitas histórias compartilhadas por você. E para quem se interessar, o nosso livro está disponível no site da Ação Educativa – “Na Linha Tênue: Experiências de arte-educação em privação de liberdade”. O livro conta com um time muito entrosado e capacitado, são experiências vividas e compartilhadas na prática.

Teria sido mais difícil sem Paulo Freire, bell hooks, Luiz Rufino, Ana Lúcia, Roberta Estrela D’Alva, Poeta Sérgio Vaz, Ednéia Gonçalves, Bell Santos, Movimento Mães de Maio e todos os poetas, professores e artistas que me guiam nessa travessia. Agradeço a parceria das coordenadoras Fernanda, Bergman, Gal, e Camila – que esteve com a gente em uma etapa importante, produtiva e reflexiva -, dos companheiros e das companheiras de trabalho e a Ação Educativa. A estrada é longa e o tempo tem muito a nos mostrar. 

Agradeço aos mais velhos e aos mais novos. Aos Orixás e às forças que me guiam.

Fiquei curiosa e espero nos encontrarmos vacinadas e com saúde para sessão pipoca com o vídeo “Além da Lousa: Culturas Juvenis, Presente! ”.

Sinta-se abraçada! Foi gostoso relembrar de como foi a trajetória até aqui.

Oh! Bendito o que semeia
Livros à mão cheia
E manda o povo pensar!
O livro, caindo n’alma
É germe – que faz a palma, 
É chuva – que faz o mar!

Castro Alves

Acima, Tati responde à carinhosa carta de Magi Freitas, coordenadora geral da Ação Educativa, que você pode ler neste link:
O aprendizado de Magi Freitas, coordenadora geral da Ação, em contato com as culturas juvenis

Confira a primeira da série de cartas que celebram a educação popular e o 27º aniversário da Ação Educativa, escrita por Denise Eloy: Uma carta para celebrar a educação popular e os 27 anos da Ação Educativa

Conheça também as outras trocas de cartas da comemoração:
> Entre Sérgio Haddad, Coordenador de projetos especiais da Ação, e Giselda Pereira, educadora do projeto Mude com Elas

> Entre Edneia Gonçalves, da nossa coordenação executiva, e, João Innecco, coordenador do cursinho TransFormação.

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